• Ana Margonato

Um encontro com a senhora vulnerabilidade...

Atualizado: 17 de mar. de 2021

Minha filha havia nascido há menos de 48 horas, já tinha recebido alta, eu também, estávamos apenas aguardando os trâmites burocráticos do hospital. Ela estava um pouco diferente do normal (aquele que eu mal conhecia ainda, mas tentava me habituar), não queria mamar, só dormia, fiz todos os procedimentos indicados pela enfermeira e, embora ela dissesse que recém nascidos dormem bastante mesmo, algo dentro de mim estava inquieto.


Já estava na cadeira de rodas para deixar o hospital, meu companheiro já estava retirando o carro do estacionamento quando insisti mais uma vez que estava preocupada, a enfermeira, para me tranquilizar, resolveu medir a glicemia dela. Mediu uma vez, duas, e saiu em silêncio da sala, voltando rapidamente com médicos e tudo mais. A glicemia dela estava tão baixa que se quer tinha parâmetro no medidor. Foi tudo tão rápido. Passei em segundos de a mãe que estava indo para casa com seu bebê para a mãe que aguardava em sofrimento o retorno dela da sala que estabilizava sua glicemia.


Ao retornar, a médica já informou que a alta estava cancelado, tudo estava cancelado na verdade. Não sabíamos o que estava acontecendo e ela estava sendo levada com urgência para UTI. Não tem ensinamento prévio na vida que nos mostre como lidar com essas situações. A gente simplesmente lida, da forma como dá, a minha foi aparentar calma, embora não tenha palavras para descrever o que sentia por dentro.


Horas aguardando, um médico não muito preparado para falar com mães recém paridas aparece e, de forma nada sutil informa que o resultado de vários exames ainda não haviam saído mas que devido o ocorrido e mais algumas manchas no rosto dela poderia ser algo grave. Não vou dizer que meu chão caiu porque neste momento eu já não tinha mais chão. Consegui ver minha filha, dentro de uma incubadora, ela mamou, me olhou como quem me pergunta o que está acontecendo e eu retornando o olhar como quem gostaria de ter a resposta.


O médico responsável me falou que os resultados deveriam sair na madrugada e que o melhor a se fazer era eu ir para casa descansar. Esse foi o pior momento de todos. Pra mim era inconcebível eu sair do hospital e deixar minha filha lá. Ir embora do hospital sem seu filho nos braços é uma daquelas coisas que parecem ser o mundo de ponta cabeça.


Foi o momento em que mais me senti vulnerável na vida. Eu não tinha o que fazer a não ser confiar que o melhor estava sendo feito e que eu não podia controlar nada daquilo tudo. Me lembro de não sentir o chão ao pisar, não me recordo das coisas que meu companheiro falava no trajeto até em casa. Sentiu um vazio tão grande dentro de mim que nada no mundo seria capaz de preencher.


Nem os três andares de escada após uma cesária recém realizada foram capazes de me fazer sentir algo. Não sentia dor, não sentia fome, apenas sentia a incapacidade de fazer algo, como me sentia exposta a dor de não ter minha filha comigo e não saber o que iria acontecer. Se sentir vulnerável pode ser uma das coisas mais difíceis de se viver num mundo em que estamos tão acostumados com a falsa sensação de controle.


Praticamente não dormi, mesmo não fazendo isso já a três noites. As 6 horas da manhã já estava na porta da UTI para ter notícias da minha filha e alimentá-la (essa parte da amamentação também estava me doendo muito, ela estava tomando fórmula na minha ausência e isso me doía demais). Já de cara recebemos ótimas noticias. Exames normais e já estava em observação, sem nenhum medicação. Senti meu chão começando a voltar, embora o simples fato dela ainda estar naquela UTI ainda me passava a sensação de perigo.


Foram longas 48 horas de observação, stress, espera e cansaço até finalmente sair. No final das contas conclui-se que foi um evento isolado de hipoglicemia e que as manchas eram decorrentes "somente" da irresponsabilidade da pediatra que na hora do parto espirrou colírio no rosto dela acidentalmente. Após respiradas bem profundas em "homenagem" a profissionais que não facilitaram nada o inicio do meu pós parto, finalmente viemos para casa.


Um tanto quanto traumatizados, esse episódio nos rendeu quase um mês de neurose cronica, que consistia basicamente em não dormir para um dos dois ficar vigiando 24 horas o bebê. Demoramos um tempo para entender a inviabilidade desse ato e, após voltarmos a dormir e recobrar a consciência, por assim dizer, a nossa relação com a vulnerabilidade começou a fluir.


Confesso que demorei bem mais que um mês para começar a criar um laço saudável com essa senhora vulnerabilidade. Até então eram regras e manuais pra todo lado, sempre criando a ideia de que estava no controle e que seria capaz de evitar todo e qualquer evento se fizesse tudo correto.


Aí o tempo vai passando, o cansaço se tornando insuportável e algumas luzes começam a se acender. Vai deixando o "controle" aqui e acolá (que você acha que tem) e percebe que o caos faz parte e sempre vai fazer, tentar controlar tudo só te deixa mais exausta do que já estaria naturalmente dentro desse negócio de criar um ser humano.


Esse episódio que ocorreu logo após o nascimento dela era na verdade a vida me falando "olha mulher, coisas acontecem, a gente não consegue prever nem evitar tudo, sofra menos e viva mais". Demorei um cadinho de tempo pra entender a mensagem, mas entendi. Deixei de olhar tanto para as pseudas culpas e passei a ver beleza no aleatório e no tanto de surpresas boas que também surgem mas a gente deixa passar despercebido muitas vezes já que olhar para o que não foi é algo que fazemos com mais frequência sem nem notar.


Fiquei meses remoendo tudo que aconteceu e pensando mas e se isso tivesse acontecido, e se aquilo, enfim, muitas hipóteses que não se concretizaram, por isso nunca saberemos seu desfecho. E é essa a questão, não tem como escrever a história completa, cada possibilidade, escolhas que fazemos, podem nos levar a caminhos muitas vezes inimagináveis, não seria justo com a gente mesmo se martirizar pelas aleatoriedades da vida.


Se sentir vulnerável não é legal, não vou ser hipócrita, mas tem um poder tão transformador que nenhuma zona de conforto é capaz de nos dar. Sentir a impotência diante da vida é sentir-se capaz de transforma-la, situações difíceis nos geram desconfortos capazes de abalar estruturas que acreditávamos serem sólidas dentro da gente e, mesmo sem querer, isso muda a gente.


Aceitar a vulnerabilidade que nos habita é saber que somos passíveis de sentir dor e alívio, raiva e amor, desilusão e esperança, pois o sentir é o que nos torna humanos e aprender como lidar com esses sentimentos faz parte da nossa jornada. Se sentir vulnerável é saber que doí, e ir assim mesmo.


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