• Ana Margonato

Registros que fiz - Palavras que encontrei *julho/22




02 de julho – Iniciamos o mês já no modo férias. Hoje é aniversário da minha mãe, tenho tentado estar ao seu lado nesta data todos os anos. Ao menos nesses últimos. Fizemos bolo e convenci minha mãe a chamar suas irmãs e fazermos uma pequena festa. Foi bom. Isis ama a liberdade da roça e os mimos da avó. Foi um dia gostoso, embora bastante cansativo. Viajar com criança é viver o paraíso e o perrengue quase simultaneamente.




07 de julho – O lugar que meus pais moram é lindo. Vivi neste sítio por um ano, nos mudamos para ele quando estava no último ano do ensino médio, todo o restante da minha adolescência e infância vivi no sitio dos meus avós paternos. Talvez por isso, eu não me sinta em casa quando estou na casa de meus pais. É um lugar lindo, ao qual não pertenço. Ainda não encontrei pertencimento em algum lugar. Talvez nunca encontre, não sei se isso é uma regra universal da existência ou apenas um presente que poucos recebem.




12 de julho – De volta a rotina, mesmo que sem uma rotina exatamente. Ao menos as corridas ao amanhecer voltaram. Isis continua de férias. Eu não. Aliás, este é o grande problema das férias escolares, cuidadores que se adequam a elas mas continuam tendo seus trabalhos por fazer. Tem sido desafiador deixar minha escrita de lado para estar com ela, ao mesmo passo que é tão bom esse tempo juntas. Acredito que minha frustração seja pelo fato de que o ano todo o meu tempo para escrever seja bastante mitigado. Qualquer tempo que me seja tirado é caro. Uma ambivalência constante que vivo sem encontrar solução.




13 de julho – A natureza sempre me envia recados. A forma como a vida brota, mesmo diante de um cenário nada promissor, me diz muito. Costumo dizer que minhas caminhadas matinais são para além da saúde física, o que me centra na saúde mental. Observar o meio ao meu redor e receber os singelos recados do universo é um presente. Um grande presente.




14 de julho – Isis ama livros. Sei que este amor não se deu sozinho. Eu, desde antes de seu nascimento, prego a palavra da leitura para ela. Uma mãe lendo a cada oportunidade ao seu redor não poderia render em outra coisa, uma garotinha que vire e mexe está com seus livros “lendo” e agora, deu de dormir abraçada com eles. Registrei para não esquecer que nada se constrói do dia para a noite. Nada.




17 de julho – A ansiedade, que já mora aqui faz anos, andou chamando umas amigas. Já disse antes, mas não custa repetir. Julho tem sido desafiador, meu espaço para além da mãe, tão mitigado, quase inexiste em alguns dias e angústia se soma com a ansiedade, formando uma turminha não muito simpática. Na tentativa de buscar um alívio fiz, pela primeira vez, macarrão. Tarefas manuais possuem um certo remédio. Provei dele, e foi bom. Pena durar tão pouco.




19 de julho – Hoje é terça, marido tirou folga e como presente do destino, uma empresa de recreação veio fazer atividade com as crianças aqui no condomínio. Marido levou a criança. Fiz lasanha de massa fresca e resolvi abrir um champanhe. Só porque estamos vivos e hoje a ansiedade parece ter saído para passear. É motivo de sobra para comemorar.




21 de julho – Lá vamos nós para férias parte II. Isis janta com chamada de vídeo quase que todos os dias com a prima. Me pediu com muita ênfase que gostaria de fazer esse jantar ao vivo. Eu, boba que sou, não vi porque dizer não (exceto pelo grande cansaço e pela conta bancária). Pé na estrada. E uma dose de esperança.




23 de julho – Aproveitamos que a garotinha não anda muito amiga do mar (para a minha profunda tristeza, já que amo ir lá falar um oi para ele toda vez que piso em terras cariocas) e fizemos um belo giro cultural com as garotas. Na última vez que estivemos no Rio eu queria conhecer o IMS e não deu certo. Desta vez, não só rolou, como a exposição que estava lá era exatamente a que eu queria ver. Me emocionei com tudo da Clarice Lispector que estava exposto lá. Senti que de alguma forma estávamos conectadas. Pela vontade de colocar palavras no mundo. Pela necessidade de fazer isso, seja como for.




24 de julho – Crianças em espaços culturais. Um desafio. Um tabu. Me incomodei muito com os olhares julgadores. “O que essa criança está fazendo aqui”, era isso que aqueles olhares diziam. Me incomodo? Sim. Mas não deixo de estar ali, com ela, e defendendo o direito da infância. O direito de estar em lugares que serão fundamentais para a formação cultural dela. A exposição do Portinari no CCBB do Rio está linda.




27 de julho – Em casa, mas ainda no modo férias, leia-se, sem rotina, com o trabalho acumulado para além do que dou conta. O stress está nas alturas e as demandas seguindo como dá. É a vida, eu sei, mas as vezes saber das coisas não nos faz nos sentirmos melhor. Tirei esta foto para me lembrar que o carinho cabe em qualquer situação. Recebi um delicioso chamego da Lilika e foi o suficiente para conseguir escrever um texto que precisava ser escrito, quase 22hs e talvez este afeto tenha realmente me afetado, a ponto de receber vários comentários e elogios sobre o texto que brotou aí, em meio ao caos e afeto.




30 de julho – Isis dormiu fora, sem mim, pela primeira vez na vida, mais especificamente 4 anos e 3 meses após seu nascimento. Achei que ficaria nervosa, apreensiva, mas tudo fluiu naturalmente. Para ambas. Estava com o pai e a avó, e ver ela ocupando espaços onde eu não preciso caber me enche de alegria. Acordei cedo e, no silêncio da casa, me vi encontrando a mim mesma naquele espaço e foi bom. Muito bom.

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