• Ana Margonato

Registros que fiz - Palavras que encontrei *junho/22

Atualizado: 31 de jul.

01 de junho – Amo quando meu dia começa com leitura, talvez por isso goste tanto de domingos, dias em que a vida parece andar mais devagar. Neste dia em particular as coisas não saíram muito como gostaria, mas este momento de leitura, mais minhas meninas ao meu lado, foi especialmente bom.




03 de junho – Isis me fez sair para passear com ela antes das 8hs da manhã. Saí emburrada, nem tinha tomado café da manhã ainda, estava suada da corrida e tudo que queria era um banho e uma xicara de café. Mas fui, de má vontade, confesso, mas fui. Conversamos com as fadas, colhemos flores, conversamos sobre a brevidade da vida (sim, ela está nesta fase de falar sobre a morte com muita frequência). Este passeio mudou os rumos do meu dia, me abasteceu de uma forma que nem sabia que estava precisando. Que bom que fui.


06 de junho – Tenho lido mais. O Dialeto Materno me tirou de um ciclo de auto piedade da falta de tempo para a leitura e me fez aproveitar as pequenas oportunidades que surgem, mesmo que brevemente. Ler enquanto Isis dorme tem sido uma delas, nas manhãs em que não saio para correr. Já disse isso muitas vezes aqui, amo ler logo pela manhã, parece deixar a cabeça mais preparada para mais um dia no Brasil (se é que isso seja possível). Foi um dia comum, que começou bem.




11 de junho – Tenho uma relação que não sei definir com a atividade física. Talvez não tenha nada de mais, muito menos algo especial que me torne diferente da grande maioria das pessoas que gostam de correr. É que eu gosto de divagar, analisar minha relação com o mundo e quando se trata da atividade física, eu sei que gosto, que realmente gosto, mas sinto que não é só isso, não é somente a endorfina sendo distribuída pelo meu corpo. É algo a mais, um diálogo, uma comunicação que nem sempre me é clara, de alguma forma entendo coisas em mim que só o movimento pode me ajudar a decifrar.


15 de julho – Que dia caótico. Me amo e me odeio na mesma proporção nos dias em que resolvo assumir mais responsabilidades do que um ser humano mais ou menos na sua plena capacidade física e mental seria capaz de assumir. Faço isso com frequência e naquela mistura de orgulho por ter conseguido e raiva por ter me colocado mais uma vez em situação de estafa, tento terminar o dia sem gritar com ninguém. Neste em especial, talvez eu tenha gritado, mas o pôr do sol estava lindo.


18 de junho – O primeiro livro que li e me marcou foi A bolsa amarela, já leu? Eu tinha 8 anos e era o “maior” livro da minibiblioteca que tinha na escola rural que eu estudava (ao menos é assim que me recordo), dia desses coloquei ele na minha lista de desejos lá naquele site que explora pessoas e por isso vende livro barato, quero ter um exemplar a disposição da Isis quando ela já souber ler. Minha paixão pela leitura é tão grande que já comprei livros para ela ler na adolescência, juro que tento segurar minha expectativa, mas nesse campo ainda falho. Flores e livros formam uma bela sintonia não acha? Ambos são muito mais do que aparentam ser, abrem portais que só quem se aproxima o suficiente é capaz de enxergar....


19 de junho – Podia ter sido um domingo qualquer, mas foi um em que eu falei sobre infância e maternidade em uma plenária do PSTU para muitas pessoas. O tema era opressões e eu diria que infância e maternidade se enquadram, infelizmente, em tudo que esta palavra possa significar. Embora demonstrasse coragem, me senti profundamente inadequada, as pessoas não falam sobre infância, não na maioria dos lugares, muito menos de maternidade, sem ser o romantismo todo que estamos habituados. Falar sobre temas ainda “não explorados” gera um desconforto difícil de lidar, mas estou aprendendo e definitivamente, não pretendo deixar de tentar. Após este rio de sensações, me permiti estar pertinho da natureza e ser acolhida pela beleza das árvores, que entendem cada milímetro de angústia do meu corpo.

23 de junho – A fotografia tem ocupado espaços maiores em mim. Sempre gostei de fotografar, mas tem sido diferente, é como se começasse a sentir o que a fotografia quer me dizer, as mensagens subliminares, os desejos por trás de cada interpretação. Correr logo pela manhã e fotografar o desabrochar do dia (e as vezes a sua despedida) tem sido o meu encontro com a artista que me habita e embora seja algo simples e absurdamente cotidiano, tem brilhado aos meus olhos e sinto que algo irá brotar daí.



24 de junho – A primeira festa junina a gente nunca esquece (ou talvez esqueça, mas as imagens ajudam a recordar). Isis estava animada para dançar e realmente dançou. Fiquei observando o movimento dos corpos ainda infantis e a forma como a sociedade vai punindo-os e transformando todos em robôs era visível ali. A alegria de ver o desabrochar da minha pequena não superou a tristeza de ver quase todas as outras crianças com medo de existirem ali, naquele espaço. Foi uma festa bonita, em uma escola que se esforça para ser diferente. Mas me senti estranha, em falta com a sociedade, vivendo em uma bolha onde só minha criança tem espaço para ser. Ainda refletindo onde esse sentimento vai me levar.



27 de junho – Encerro meu diário deste mês com esta imagem. Uma foto bonita de mãe e filha em um dia que não teria aula, estava frustrada pois não conseguiria mais uma vez fazer muitas coisas que já estavam absurdamente atrasadas, ao mesmo tempo em que estávamos em um dia bom nosso, aqueles em que ambas colaboram com as necessidades básicas uma da outra. Eu com alguma aparente virose, mas com forças para me arrumar e tirar foto no espelho, coisa que raramente faço. Isis com um único desejo, ir ao parquinho balançar e fazer um programa que adora, irmos juntas a lojas de utilidades comprar coisas que não precisamos. O dia foi cansativo, agradável e engraçado, quase uma réplica da maioria dos nossos dias. Fim.



Com curiosidade e afeto,


Ana.

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