• Ana Margonato

Os caminhos do amor....

Dias atrás li alguns textos da Rosane Castilho que falava sobre essa busca pelo amor, nas relações que hoje temos, e principalmente na nossa infância. Estaria ele nos mais singelos detalhes? Naquele café da manhã feito cedinho pra você não sair em jejum, no almoço de domingo, sempre com aquele prato que tanto gosta, no olhar amoroso que, embora não haja toque, é um abraço silencioso.


Pensar sobre os diversos caminhos do amor, que se manifestam nos mais surpreendentes locais e momentos, me levou à memórias que, embora ainda vívidas, foram dessa vez olhadas por outro angulo, outra telespectadora, e eu convido vocês a viajarem junto comigo nesse pedacinho da minha história, nesse pedacinho de mim.


Ser adolescente nos anos 2000 era bem interessante (pra não dizer desafiador, mas que adolescência não é, não é mesmo?). Eu vivia na zona rural de uma cidade de 3000 habitantes. Se tinha uma pessoa antenada com a tecnologia, essa era eu (só que não). Naquela época era bem raro alguém ter computador ou internet (pelo menos na minha cidade), videogame só meus primos ricos tinham, eu jogava sem nem saber o que era, apertando todos os botões e só ganhava por sorte mesmo e porque eles eram muito ruins no jogo.


Pois bem, com essa familiaridade toda ai com a tecnologia, eis que surgiu na cidade vizinha um curso de informática. Todo mundo fazia, era a sensação do momento. Você aprendia desde ligar o computador, até mexer no power point, curso mega útil (contém ironia), mas nem eu, nem minhas amigas sabíamos disso, então nossa vida dependia desse bendito curso (colocando um drama aqui pra entrar no clima da época).


O problema aí é que todas minhas amigas tinham condições de pagar as parcelas desse tal curso inovador e lá em casa ninguém nunca tinha feito curso de nada e eu, a filha do meio, achei que poderia convencer minha mãe, que convenceria meu pai. Claro que quando envolvia dinheiro o tiro sempre saía pela culatra, minha mãe falava pra perguntar pro meu pai e como ninguém queria perguntar pro meu pai, assim morria um sonho.


Mas não dessa vez, falei pra mim mesma. Queria muito fazer esse curso e achei que valia a pena o risco de pedir pro meu pai. Falando assim até parece que ele não era uma pessoa muito amigável né, mas não se engane, ele só não gostava que pedisse coisas que ele tinha que pagar (isso não gostava mesmo), mas hoje sei que não era mão de vaquice, mas necessidade mesmo.


Usei todo meu poder de convencimento, mostrei pra ele com muitos argumentos que minha carreira futura dependeria de saber usar um computador (não que não fosse verdade, mas podia ter aprendido de graça né minha gente, mas a Ana de 15 anos não tinha ideia disso ainda). Modéstia a parte, sou bem boa nesse negócio de convencer as pessoas com meus argumentos e deu certo. Ele aceitou pagar o curso. As passagens ida e volta eu só lembrei ele depois que já tinha assinado o contrato que era pra não ter como desistir mesmo (esperta ela).


O curso era a tarde, mas a minha saga de locomoção era bem intensa. Eu tinha que pegar o ônibus escolar pela manhã pra pegar outro ônibus pra cidade vizinha e na volta ia direto para escola, já que estudava à noite. Hoje em dia eu me pego pensando porque cargas d"água eu não carregava um lanche comigo, afinal, ficava quase 12 horas fora de casa, mas né, águas passadas de uma adolescente com fome.


Após a aula inovadora de informática iam todos para uma lanchonete que tinha salgados maravilhosos, na nossa cidade não tinha, então era tudo muito "especial". Só que tinha um problema ai, meu pai além de dar o dinheiro da passagem, me dava 5 reais para comer (naquela época era bastante dinheiro, pagava "uma janta"), só que coincidentemente, esse era exatamente o valor do "baile" de sábado (meu programa de final de semana era um baile com músicas, figurinos e temáticas no mínimo, exóticas, não me julguem, era o que tinha).


Sabia que a chance do meu pai me dar mais 5 reais na mesma semana era zero. Então a escolha era simples, baile ou comida. Eu tinha 15 anos né, comida não era prioridade. Só recordo dos quebrantes que colocava no salgado alheio. Vez ou outra minha amiga que sabia das minhas sagas financeiras se oferecia para me pagar um, eu fazia um charme, deixava pra aceitar na segunda vez pra fingir que não estava com fome (torcendo pra ela oferecer de novo claro). E assim foram quase dois anos de curso minha gente.


Tá, mas o que isso tem a ver com o amor? Tudo. Na época eu ficava chateada de não ter dinheiro para fazer tudo que minhas amigas faziam e via muitas das coisas que meus pais faziam como pouco, pelo simples fato de não ser o quanto outras pessoas recebiam. Hoje, fazendo essa retrospectiva com outro olhar vejo tantas cenas que passaram despercebidas pelo meu radar do amor.


Me recordo que um dia meu pai não tinha o dinheiro da passagem e era dia de pagar a parcela do curso. Saímos mais cedo de casa e ele vendeu vários queijos, ovos e quiabos para juntar o dinheiro que faltava. Lembro da cena das moedas contadinhas na minha mão (não me lembro ao certo, mas acho que essa semana tive que usar de outros métodos para entrar no baile sem o tradicional pague e entre).


Os caminhos que o amor percorre são muitas vezes silenciosos. Meu pai não me disse te amo minha filha e meu deu um abraço, mas pegou o carro e foi conseguir o dinheiro necessário para pagar o curso que a filha tanto gostava. Não quero romantizar as inabilidades emocionais dessa geração, pois isso nunca trouxe felicidade a ninguém, mas também não quero que seus esforços sejam apagados.


Cada geração, cada ser humano, cada pai e mãe, possui uma história, suas limitações e superações, seus atributos e defeitos, seus sapatos lustrosos e seus calos. Sua própria forma de demonstrar amor. Nem sempre é o que gostaríamos de receber, e não tem como afirmar se esse não é o melhor que puderiam lhe oferecer. A gente não sabe do outro, olhar para o calo e o sapato lustroso não é vive-lo, é só um olhar.


Que cada um de nós possa encontrar os inúmeros caminhos do amor, sejam eles ideais ou não, que sejam amor.


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