• Ana Margonato

Olhos de Luiza

Atualizado: 20 de nov. de 2021


Luiza estava atrasada. Toda terça era a mesma coisa, recebia a visita de Carlos, seu amigo do grupo de estudos nas noites de segunda, perdia a hora na manhã seguinte com mais frequência do que gostaria de admitir. Saía com uma torrada na boca, calçando os sapatos enquanto descia as escadas do seu apartamento e pensando na noite anterior, estudar não era exatamente a ocupação dos dois.


Trabalhava em um consultório dentário. Não tinha a menor intenção de ser dentista ou algo parecido, mas gostava de trabalhar lá pelas vidraças. A dentista preferia ambientes com bastante luz natural, o que resultou em grandes janelas, voltadas para uma movimentada avenida, onde dava para ver muita vida acontecendo. Era isso sua maior paixão, observar a vida acontecendo, ali, na sua frente, ao vivo.


Isso às vezes lhe gerava alguns problemas, como a vez que se concentrou tanto em olhar um casal visivelmente apaixonado, dando beijos para lá de excitantes, bem na esquina, sem qualquer preocupação com os olhares daqueles que ali passavam, que quando percebeu, havia colocado o sugador no nariz do paciente. Uma experiência nada agradável, pior do que a advertência, só o sermão e a vergonha embutidos junto.

Uma vez ela afirmou com certeza absoluta que a senhora do outro lado da rua estava planejando um assalto à casa lotérica que ficava ao lado do consultório. Tudo isso porque observou que a senhora ficava toda terça e quinta, às 16 horas, por um tempo considerável, parada, observando o movimento e vez ou outra fazia uma ligação. Gerou tanta curiosidade que a secretária da advogada do andar de cima foi falar com a senhora, o que terminou em muitas gargalhadas de todos os envolvidos, já que a suspeita havia afirmado que era mãe de um funcionário da lotérica, fazia hidroginástica naqueles dias da semana e ficava ali, esperando o filho lhe dar uma carona.


Em casa, não havia vidraças ou sacada, então usava a imaginação para criar os mais variados cenários para seus vizinhos. Imaginava seus segredos mais íntimos, se sentia mais humana quando fazia isso. A vizinha do lado, por exemplo, gostava de ouvir música clássica sempre aos sábados pela manhã, Luiza se perguntava por que apenas nesse dia específico? Talvez dias de semana não fossem dignos de sinfonias? Quem sabe não seria nesse dia e horário que ela recebia alguma visita em especial ou quem sabe ainda ela guardasse um segredo obscuro e o som da música fosse apenas para ofuscar o barulho de seja lá o que ela estivesse fazendo, tantas possibilidades, Luiza se perdia pensando nas mais variadas situações que poderiam ocorrer.

O casal do primeiro andar então, era o que mais lhe intrigava e levava horas a fio de sua imaginação. Ambos eram carrancudos, não importava que dia fosse, respondiam um bom dia com voz e olhar de quem nem sequer sabe o que isso significa. Luiza ficava muito curiosa para entender de onde vinha tanta amargura, ambos saíam para trabalhar cedo, vez ou outra se esbarravam com Luiza nas escadas. Seria o trabalho desses dois tão miserável que lhes tirou o gosto da vida? Teriam eles tido um filho que veio a falecer? Nunca vi eles com crianças, refletia, talvez tenham alguma doença crônica, que gere dores tão intensas que sorrir não seja uma opção, pensava. Tentou por inúmeras vezes observar mais para decifrar o mistério, mas nada conseguiu além de silêncio e vazio.


As pessoas não entendiam a sua curiosidade pela vida e a forma como ela se desenrola, para a grande maioria de seus ouvintes, ela era uma mera fofoqueira e sem afazeres. Depois de vários episódios um tanto quanto desastrosos, como o da possível senhora assaltante, Luiza resolveu não dividir mais com ninguém suas teorias e observações, isso já tinha lhe causado muitos problemas. Com o tempo foi deixando de olhar pelas vidraças todos os dias. Quando percebeu já fazia uma semana que perdia o horário que os vira-latas do Sr. Luiz do prédio da rua de trás passavam passeando e fazendo aquela algazarra. Já não via o bonitão do consultório médico da sala 25 saindo pontualmente às 15h30min toda sexta-feira e nem dava mais tchau da janela para a dona Rosa que ia à padaria sempre no final da tarde comprar pão para o café da manhã do dia seguinte, “detesto ir à padaria de manhã, muito lotada”, dizia à Luiza sempre que a encontrava.


Em casa, perdeu o interesse pelos misteriosos vizinhos do primeiro andar e até deixou de observar os que haviam acabado de se mudar no andar de baixo. A música clássica aos sábados já não lhe causava questionamentos e o latido do cachorro do bloco vizinho não lhe despertava mais a curiosidade em saber se era um problema respiratório ou só um latido esquisito mesmo. Luiza se sentia estranha, talvez sua observação fosse apenas fofoca revestida de interesse pela vida acontecendo mesmo, deixou de olhar para fora, e também não quis mais olhar para dentro.


Seguiram semanas assim, tudo parecia cinza, a luminosidade das vidraças lhe causava incômodo aos olhos, resolveu se sentar de costas para as janelas e não olhar mais para trás. Suposições sobre acontecimentos aleatórios já não lhe causavam interesse, parecia apenas algo que não valia a pena ser observado ou ouvido.

E assim foi, até o dia em que um alarme ensurdecedor disparou e todos correram para a vidraça ver o que estava acontecendo. Policiais chegavam de todos os lados. “A lotérica foi assaltada”, gritou Marisa, a recepcionista. “Um acontecimento e tanto, vários assaltantes, levaram todo o dinheiro arrecadado na semana, chegaram pouco antes do horário do carro forte, até parece àqueles assaltos bem planejados...” continuou falando.


Luiza, como se saísse de um transe, não pôde deixar de observar todos os detalhes do que estava acontecendo, olhou para os policiais, o dono da lotérica gritando desesperadamente, a dona Júlia, funcionária antiga da loja ao lado falando tudo que viu, Sr. Roberto, o zelador do prédio dizendo ter visto algum dos assaltantes sem máscara. Todos que passavam pela calçada paravam para ver o que estava acontecendo, afinal, não era todo dia que aglomerações desse porte aconteciam.


De repente, tudo começou a ficar interessante novamente, observar cada detalhe, nas suas menores minúcias, parecia ser o que ela mais queria fazer. Lembrou-se de todas as situações em que riram dela e zombaram de suas observações. Decidiu analisar a cena do crime, ao seu modo, mas em silêncio, guardando informações preciosas somente para si.

Nesse instante, seus olhos alcançaram o outro lado da rua, e cruzaram diretamente com os da senhora que tanto havia observado, semanas atrás. Parada, no mesmo lugar de sempre, olhou para Luiza e sorriu, um sorriso meio maroto, com uma espécie de satisfação, e lhe deu uma piscadela. Luiza congelou, um pouco por vergonha ao ver que também estava sendo observada e um pouco porque achou aquele ato um tanto quanto estranho. Afastou-se das janelas, foi tirar o raio X do paciente que já havia enjoado do grande show lá embaixo.


Aquele gesto, daquela senhora, que suspeito... O que ela quis dizer com aquele olhar? E aquela piscadela? O que foi aquilo? Luiza ficou o atendimento inteiro intrigada com o que havia visto, praticamente uma obsessão. Decidiu que não falaria sobre o assunto com ninguém mais, suas aventuras seriam somente suas, seu olhar seria sua bússola, quem sabe não começava a escrever um livro de contos, pensou. Quando percebeu estava sentada voltada para as vidraças e toda aquela luminosidade refletia em seus olhos como uma espécie de alimento para sua alma. Luiza voltou a brilhar, por fora, e por dentro.

PS: O assalto aconteceu em uma quinta-feira, às 16 horas. Maria, uma antiga cliente da lotérica que vai sempre no mesmo dia e horário jogar o jogo da quina, disse que um dos assaltantes tinha um corpo bastante parecido com o de uma mulher, mais especificamente uma senhora, pois andava mais devagar e um pouco curvada. Ninguém acreditou, acharam bem absurda a ideia de que uma senhorinha seria uma assaltante, mas ela, jura que sabe bem o que viu. Fim.






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