• Ana Margonato

O mito da perfeição

Quantas vezes já ouviu mulheres falando que antes da maternidade se cuidavam, mantinham a casa impecável, tinham o corpo mais esbelto entre tantos outros atributos estéticos e que, após a maternidade isso foi ladeira abaixo?


Já reparou que muda o endereço, mas os relatos continuam bem parecidos e no final das contas, a grande maioria das mulheres se vê saudosista do tempo em que tinham "controle" sobre a forma de se cuidar e organizar sua vida?


Como eu nem gosto de uma polêmica (risos) venho aqui para problematizar isso tudo e lhe faço outra pergunta: Já se perguntou porque a maioria das mulheres se cobra por perfeição em praticamente tudo, estética, profissional, relacionamentos, maternidade (a lista é extensa...)?


Sei que muitas pessoas dizem ser mais vaidosas, outras menos e que geralmente atribuímos tais características ao que chamamos de "personalidade", que embora pareça ser um "item de fábrica" é moldada pelas nossas relações sociais, ou seja, o meio em que vivemos e a forma como nos relacionamos com ele.


Dito isso, vamos analisar a sociedade em que vivemos e como ela impacta nas nossas "escolhas". Desde a infância somos cobradas de que menina tem que tirar boas notas, tem que ser organizada, andar de vestido e roupas limpas (isso sem falar do fecha a perna né), que brincar "igual menino" (leia-se brincar livremente) é feio, que menina deve aprender a limpar casa, cozinhar entre tantos atributos voltados ao cuidado alheio. No âmbito estético-corporal, é cobrada se não está dentro do padrão, se não fizer todas coisas tidas como "cuidado" (unha, cabelo, sobrancelha etc) é vista como relaxada e por ai vai.


Aí você pode me dizer, "mas Ana, eu não vivi nada disso e sou mega vaidosa". O que não percebemos é que tudo isso muitas vezes é sutil, não necessariamente viveu isso dentro de casa, mas ouviu uma indireta na casa da avó, aquele tio que tirava sarro das suas gordurinhas, estranhos que faziam comentários sempre voltados para tributos físicos seus, as amigas que seguiam a risca o padrão e que te influenciavam sem que percebesse.


Vivemos em uma sociedade (que coloca a mulher na principal função de ser um objeto de desejo e troféu de conquista masculino, bem como de alguém frágil e incompetente para certos assuntos, dos quais os homens devem protegê-las e tutelá-las), esses elementos estarão presentes na história de todas nós, seja mais sutil ou marcante, explicito ou implícito, sempre nos impactam de alguma forma e influenciam nas nossas escolhas e naquilo que acreditamos gostar.


E porque estou dizendo tudo isso? voltemos lá no começo, quando digo que a maternidade chega e a sensação é que, tudo que antes era impecável está indo ladeira abaixo, lembram? pois bem, é porque muitas vezes vai mesmo e isso pode ser desesperador.


A maternidade muda muita coisa, inclusive nossas relações sociais e automaticamente a forma como nos vemos perante a sociedade e, embora isso dito assim numa frase possa parecer pouca coisa, minha amiga, isso é mudança pra uma vida inteira. Tenho por mim que entrar no portal maternidade e sair do outro lado intacta é igual tentar não passar vergonha em publico com sua cria, impossível.


Muitas vezes a sensação de que você não é mais a mesma é gigante e sabe, vou te contar um segredo, não é mesmo! Uma das grandes qualidades da espécie humana é a capacidade de se reinventar e se ver em novos papeis que no agora lhe parecem caber. O que gera a angústia é a velha e astuta perfeição, que tem apego ao velho modo de viver que te ensinaram antes e não quer te deixar voar.


Todas as vezes que ouviu que mulher faz três coisas ao mesmo tempo e ainda sorri, que para ser uma boa mãe deve cumprir as 24568426 cartilhas a risca e que adaptar as coisas dentro da sua realidade é preguiça, que a maternidade não é o "fim do mundo" e deve voltar a se "cuidar" como antes entre tantas outras coisas, é a tinhosa da perfeição tentando fazer você acreditar que não é boa o bastante e que ver a vida com novos olhos não é sinônimo de sabedoria, mas de fracasso.


Se ver num novo papel que sequer imaginava que poderia (e que seria por muitas vezes tão doloroso) pode ser muito difícil, mas também pode ser libertador. A maternidade nos leva a olhar o que antes víamos como prioridade e sucesso com dúvida, e questionar padrões pode ser aquele suspiro aliviante que lhe faltava, mas que os atropelos da vida não tinham lhe dado a chance de dar.


A maternidade pode ser uma bela viagem, cheia de novas versões nossas para se conhecer. A chance de quebrar expectativas e viver as possibilidades, apreciar o simples e a generosidade do nosso corpo conosco, que nos mantém vivas e funcionais. Viver mais leve e certamente, aproveitar mais o hoje, que é tudo que temos.


O caos do portal maternidade trás muitos desafios, sem dúvida nenhuma, mas ter um novo olhar para os padrões de perfeição que nos foram impostos é certamente um belo presente nessa travessia.

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