• Ana Margonato

O abrir das asas



Me lembro como se fosse ontem, a primeira vez que Ísis mamou no meu peito. Poucos minutos após seu nascimento, tudo ainda inundado de dor, espanto e afeto, grudou no meio peito como quem dependia daquilo para sobreviver. Ser humano é um bicho que já nasce sabendo o que fazer para se manter respirando, vejo aí uma dose de desespero, mas também acho bonito.

Foi tudo tão diferente do que imaginava, mesmo que eu não soubesse exatamente o que deveria imaginar, só sei que pensava ser diferente. Tão visceral, sentir alguém se alimentando do seu corpo. Não achei bonito nem feio, foi intenso e tão somente isso. Seguimos assim nas horas que se sucederam, mamava, dormia e assim foi até ser levada às pressas para a UTI com hipoglicemia, menos de 48 horas após seu nascimento, minutos antes de sairmos do hospital para casa.


Não sabíamos que tudo não passava de um mal-entendido entre um bebê e um mamilo. Descobrimos isso apenas após as 24 horas mais longas da minha vida, um período em que perdi o chão, onde meus pés flutuavam, junto com a minha alma, por algum canto, na busca de encontrar ar capaz de me fazer respirar. Um susto que deixou marcas profundas demais em uma recém mãe nascida, capaz de fazer dela um pouco mais cuidadosa do que uma mãe normal.

Contava todas as mamadas, todos os minutos, se desse, até os segundos. O medo de acontecer algo novamente tirava o pouco de sanidade que me restava. Ai do marido se não anotasse o horário exato, exatamente quando terminava a mamada. Os mamilos, choravam de dor, fissuras, sangramento, cada mamada trazia consigo lágrimas e mais lágrimas, escorrendo sem qualquer controle na intenção de ajudar a suportar a dor que era alimentar outro ser humano com meu próprio corpo.


Assim foram semanas, meses. A dor foi passando, do corpo e da alma. A nuvem de dia nublado foi dando espaço para dias levemente ensolarados e amamentar passou a ser prazeroso, o sorriso de uma bebê que já não via o mamilo apenas como alimento, mas como uma conexão com aquela que lhe trouxe ao mundo. Ambas foram crescendo, juntas, ali, entre leite, olhares e conexão.


As mamadas foram diminuindo pouco a pouco. Até próximo dos dois anos, Ísis vivia um caso de amor intenso com o tão conhecido “tinhão”, mamava quando estava triste, alegre, quando caia, estava frustrada e porque não, entediada também. Aos poucos fui diminuindo, tirando daqui, mudando o foco ali, às vezes acontecia algo, uma viagem ou qualquer coisa que mudasse muito a rotina, retroagia os hábitos, e a gente começava tudo de novo.


Nesse ritmo, chegamos aos 3 anos e meio. Nessa altura o tinhão era só para dormir à noite. Embora ainda pedido com bastante ênfase em momentos de crise, eu não cedia mais.

Uma parte minha me dizia que o momento de encerrar esse ciclo havia chegado, mas uma outra, tentava me convencer de que deveria esperar um pouco mais. É difícil ver sua criança crescer, mais ainda, deixar ela voar. Até então eu dizia que ela estava relutante da despedida, mesmo sabendo que a questão era muito mais minha do que dela. Ísis pediu para dormir no quarto dela, coisa que nunca havia feito antes, achei que era um sinal. Fiz um trato, dormir lá com história contada e sem tinhão. Topou, e assim foi, feito coisa simples, mesmo que não fosse nem um pouco. Contei história e logo dormiu, sem pedir para mamar e eu, fiquei com o coração apertado, porque sabia o que devia fazer na noite seguinte.


Não queria o final fosse assim, sem um ritual de despedida, ela iria continuar pedindo, não queria que o desmame acontecesse mediante tantos pedidos negados, queria que soubesse que houve um começo, meio e um fim. É mais doloroso, eu sei, despedidas levam um pedaço da gente, mas também devolvem aquilo que é nosso por direito.


Na noite seguinte, sentei na cama e olhando nos seus olhos falei que o tinhão estava ali para se despedir, se ela queria mamar um pouquinho e dizer adeus. Ela me olhou com os olhos cheios de lágrimas e mamou sabendo que aquele era um final predestinado a acontecer. Eu, agradeci pelas luzes fracas que não permitiam que ela me visse chorando mais que ela, tentava respirar fundo para lhe passar a segurança necessária naquele momento, segurança essa que não tinha, mas fingia ter. A dor de um filho dói na gente de um jeito estranho, perfura a alma e às vezes fere feito espinho de cacto, invisível, porém, insistente em se mostrar presente.


A infância é um eterno ciclo de morte vida, vida morte, mas eu me dou ao luxo de às vezes fingir que não sei. Quando me deparo com a inevitável dor da existência, por vezes congelo, postergo e busco outra solução. Mas não há outra forma de se viver a infância se não crescendo e ando desconfiando de que não há outra forma de ser mãe se não aprendendo a crescer como as crianças.




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