• Ana Margonato

Mas e as coisas boas?

Sabemos que olhar para o perigo, para aquilo que há de ruim é uma habilidade de sobrevivência da nossa espécie. Estar alerta ao pior que se pode acontecer foi o que nos salvou lá nas cavernas. Mas agora, que já temos mecanismos de defesa e prevenção de tanta coisa, por que ainda nos comportamos como se só existisse o mal e olhamos com muito mais afinco a isso?


A atenção que damos a eventos ruins que acontecem conosco e com as demais pessoas é sempre maior do que a que damos a eventos bons, já reparou? Muitas vezes se quer percebemos algo de bom que acontece, mas se algo não tão bom assim acontece, já ativamos o alerta e o modo lamentação vem à tona.


Não que eu esteja isenta disso tudo viu, faço isso com frequência e tenho tentado observar mais quando ocorre, observando principalmente os efeitos disso no meu dia. Quantas vezes não estamos super bem humorados e já às 08hs da manhã perdemos esse bom humor por uma fechada no trânsito? Mas dificilmente observamos em um dia de mau humor a gentileza de alguém lhe dando passagem na rotatória, assim como um gesto desse raramente melhora o humor de alguém.


Percebem como a gente se acostuma com a sofrência e faz dela a personagem principal da nossa história muitas vezes sem nem se quer olhar ao redor?


Nossa Ana, que papo mais namastê esse ai, parece uma bela justificativa pra se alienar das mazelas do mundo e fingir que a vida de todos é um belo arco-iris. Seria? para vermos as coisas boas que muitas pessoas fazem a todo momento precisamos necessariamente esquecer aquilo de ruim que acontece?


O bom e o ruim, o doce e o amargo, o riso e o choro embora sejam opostos, co-existem e podem perfeitamente habitar um mesmo local. Você não precisa se alienar, muito menos fingir que coisas horríveis não acontecem a todo momento, porque infelizmente elas existem e honestamente, acredito que sempre existirão, mas isso não anula as coisas boas, não diminui o riso despretensioso do estranho que lhe foi gentil, o ato bondoso do vizinho que adotou o cãozinho que antes dormia na rua, essas coisas também continuarão acontecendo o tempo todo.


As vezes criamos a ideia de que, se coisas más acontecem, precisamos obrigatoriamente sofrer o tempo todo, se sentir bem numa manhã qualquer lhe parece errado, lhe parece egoísta. mas ai fico pensando, se todo mundo estiver mal o tempo todo, como é que a gente se ajuda? como é que vemos no ato do outro uma pontinha de esperança e quem sabe um dia um pouco mais leve.


Tem tanta coisa boa acontecendo, tantas pessoas que se ajudam e que genuinamente se querem bem que não quero acreditar que o melhor que temos a fazer é falar o tempo todo daquilo que não deu certo.


Mas Ana, então vamos falar só do bom e passar pano para aquilo que deve ser combatido e mostrado? De forma alguma, o ativismo e toda forma de luta contra aquilo que nos afeta enquanto seres vivos é de suma importância e precisamos muitas vezes focar nisso, mesmo que seja absurdamente pesado. A vida nunca é só amor, é um verdadeiro bate e assopra (para alguns mais bate e para outros mais assopra), mas sempre tem os dois na história. Muitas lutas são na busca de ser essa equação mais justa do que é atualmente e olhar para a dor do mundo é essencial para esta mudança.


Mas acredito eu que nenhum ativista consiga sobreviver (ao menos mentalmente) olhando o tempo todo apenas para as maldades do mundo. É muito cruel,não é verídico, e não é razoável com nenhum ser humano viver apenas na dor. Olhar para aquilo de bom que acontece não invalida nenhum esforço na luta contra aquilo que nos faz mal. É uma forma de se fortalecer, um respiro no meio de tanto caos.


Existe muita maldade? sim. Isso machuca aqueles que buscam um mundo mais saudável para todos viverem? sim. E muitas dessas pessoas fazem coisas excepcionais pelo outro, pela melhora da humanidade, pelo luta para vivermos em uma sociedade mais justa.


Que haja revolta, mas que também haja esperança.



3 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Medo