• Ana Margonato

Limonada

Tem dias que acordo olhando para o mundo como se ele fosse uma limonada sem açúcar. Sem qualquer motivo aparente. Talvez uma soma de muitos eventos, mas nada que me permita achar um culpado. Ontem foi um dia desses. A ansiedade estava a todo vapor, o mau humor entrou no clima e resolveu lhe fazer companhia. Entre tantos “mãe”, pedi uma pausa. Precisava ao menos de 5 minutos sem ouvir esta palavra para que pudesse respirar e tomar uma xícara de café sentindo que minha dignidade ainda estava sentada ao meu lado. Como sempre faço, verbalizei minha necessidade. Nem sempre tenho elas atendidas. Quase nunca na verdade. Mas insisto em falar mesmo assim. Desta vez a criança decidiu que era justo o pedido e ficou em silêncio no seu quarto, ia desenhar, afirmou. Minutos depois saiu de lá com um desenho que chamou de “nossa vida”. Explicou que cada círculo era uma versão dela e que o círculo de fora era ela agora “cada uma dessas eu aí dentro foi você que ajudou a criar, aí agora essa aqui sou eu de hoje”. Um segundo de impacto pela profundidade da reflexão e mais um para lembrar que ela anda encantada em estudar o corpo humano, pediu um manual e tudo. Na soma do aprendizado sobre a formação humana, ocorreu ali uma espécie de metáfora para a nossa vida hoje, para os nossos dias caóticos e tão cheios de afeto. Não vou dizer que esta cena foi o suficiente para adoçar a limonada, ontem ela estava absurdamente azeda, mas pingou ali umas gotinhas de açúcar, a ponto de me lembrar que nada nessa vida é linear, nem mesmo um dia atravessado por limões indesejados. O dia acabou, um novo chegou. Um nascer do sol mais belo do que o habitual. Criança acordou cedo, parada em frente o clarão vindo da janela achei lindo o sol iluminando seu rosto. Ou seria ela iluminando o sol. Não importa. Ambos são luz, ambos iluminam o meu dia.






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