• Ana Margonato

Entre elas - Com Pâmela Rodrigues


Pâmela Rodrigues é uma brasileira expatriada que vive na Austrália desde 2017. Após viver vários processos em suas gestações e partos, encontrou nesta fase da vida de uma mulher sua profissão. Mentora de Parto, Educadora Pre Natal e Doula, realiza acompanhamento de gestantes durante toda a gravidez, fornecendo conhecimento e suporte que auxiliam mulheres no caminho para um parto mais natural e fisiológico possível.



Que caminhos te levaram a trabalhar como mentora de parto?


Pâmela: Através do nascimento dos meus 3 filhos, na busca incansável de ter um parto para mim e uma experiência de nascimento para eles de forma gentil e positiva, como raramente ouvimos falar, tendo passado por 2 partos roubados ( Cesáreas sem nenhuma indicação real - Brasil e Austrália) e explorando esse “lugar de parto” até conquistar meu Parto Domiciliar Natural após 2 Cesáreas (HBAC), me vi portadora de um acervo de informações, estudos, observações e insights sobre o processo de parir em mãos e com a consciência da distância que isso está do sistema em que vivemos atualmente, percebi então que eu tinha desenvolvido ali um mapa que poderia guiar outras muitas mulheres para o mais próximo possível de uma boa experiência de parto.

Morando na Austrália desde 2017, observei algumas diferenças nos sistemas obstétricos e de cuidados com a gestante, comparados ao Brasil onde tive minha 1a experiência com o nascimento da minha filha em 2011, e acompanhando também mulheres que estão no processo de dar à luz atualmente. Porém, apesar de a Austrália ser um país onde as taxas de parto normal são maiores comparadas ao Brasil, a Austrália apresenta um número bem grande de intervenções, o que aumenta também a insatisfação e traumas das mulheres nesse processo que deveria ser o mais natural e fisiológico possível.

Conhecer essas realidades, estudar os temas que envolvem esse processo, pensar de forma estratégica de como lidar com uma cultura tão enraizada de Partos Negativos, me fez ter uma ânsia de compartilhar tais informações com mulheres que procuram ter uma boa experiência desse momento, e de forma muito entusiasmada passei a orientar as mulheres ao meu redor que se descobriam gestantes, e aos poucos me vi em uma rotina onde grande parte do meu dia era investido em grupos de partos e mensagens no WhatsApp guiando mulheres para o melhor parto possível.

Nesse momento eu já ouvia que eu deveria “ser doula”, mas só após o nascimento do meu terceiro filho, eu vi o quanto o meu PARTO nasceu de um preparo mais amplo, de ambiente, de pessoas, saber navegar o sistema e as escolhas de profissionais e serviços além muito preparo mental e outras questões que descobri durante esse processo, e que este era um trabalho muito complementar com o trabalho de doulagem que eu havia conhecido até aquele momento, além disso, eu ainda não sabia o quanto de mim queria estar no dia do parto, dentro dos hospitais e seus protocolos e cultura intervencionistas.

Digo que até a gestação do Henry eu conheci bastante sobre fisiologia do parto e violência obstétrica, desse ponto em diante mergulhei no que era de fato O PARTO e como ele acontece, antes de mais nada, na nossa cabeça.

Enquanto eu vivia meu puerpério pensei que ali se findava então essa jornada de viver estudando e pesquisando sobre partos, ao mesmo tempo que o telefone não parava, e de forma muito automática eu continuava sendo mentora de parto de muitas mulheres.

Com o tempo eu precisaria retornar ao mercado de trabalho, apesar de já ter me desconectado com a Pamela profissional de antes, apaixonada pelo direito e por gestão financeira, administração hospitalar e humanização no atendimento hospitalar... Quando ouvi uma frase: "O que você faz, enquanto você "enrola" pode ser seu propósito profissional!" - Gotcha - ali vi que era guiar as mulheres no processo de parir e passei a enxergar essas experiências como ferramentas incríveis que me ajudariam no meu novo propósito.

"A MENTORA é alguém que passou pelo processo e através do conhecimento adquirido guia outras mulheres, mostrando os possíveis caminhos, para que façam de forma consciente, melhores escolhas." Nasceu a Mentoria de Parto. Nunca antes havia ouvido esse termo, e acho que mais ninguém, pois constantemente doulas me perguntavam a respeito. Mas o conceito de "MENTOR" era exatamente o retrato do eu já estava fazendo, e estava disposta a transformar em meu trabalho oficial. Através da Mentoria de Parto, não consegui resistir a estar ao lado dessa mulher nesse dia tão importante, então abri meu coração também para a doulagem, como serviço complementar.



Porque falar de um parto com prazer gera tanto incômodo?


Pâmela: Falar de mulher com prazer, gera incomodo, por si só.

Só costuma não gerar quando o prazer dessa mulher está ligado a satisfazer um prazer do homem. Um exemplo, é como o assunto masturbação masculina é normalizado e a masturbação feminina, erotizado e tabu. Como se a mulher sentir prazer tirasse dela ""o benefício" de "mulher de valor", "mulher direita", que seria a "mulher ideal para se casar""... Enquanto dos homens nada relacionado a essa sexualidade é reprimida, controlada ou servirá de medidor de "qualidade de homem".

Como se estivéssemos exclusivamente a serviço do prazer masculino. Há muito pouco tempo na história a mulher se emancipa legalmente em várias questões, mas culturalmente muito no inconsciente coletivo os pré-conceitos se arrastam por séculos, inclusive entre as mulheres, repetindo os padrões.

No parto então, nem se fala!

Seguindo esse estereótipo, e as questões culturais vamos além, a mulher-mãe é santa e sagrada, longe de ser no sentido de ser respeitada por isso como DEVERIA ser, mas sim no sentido de ser "proibida de errar, ou pecar" e lembrem-se: prazer da mulher é errado e pecado. Quando envolve ter um processo prazeroso de parto, até parece soar culturalmente como incesto, e podemos então nos perguntar, e como acontece para conceber o bebê que está sendo parido? Não deveria a mulher ter sentido prazer nesse momento? Por que não ter um parto também com prazer?

Aqui quero lembrar que "o hormônio do parto" é o "hormônio do amor"... Dos carinhos e da relação sexual, a ocitocina! E um parto com prazer não só é possível, como é saudável!

O segundo motivo que quero trazer é que estamos sendo educadas para a competição entre as mulheres, e se meu parto foi sofrido quero acreditar que todos serão, "não é justo que seja possível que outra mulher sinta prazer para parir!". Estamos o tempo todo nos comparando, buscando na outra mulher um modelo se comparar ou julgar, essa é uma ideia benéfica somente para o patriarcado, quando as mulheres isoladamente não possuem força para mudar o sistema. Precisamos resgatar nosso senso de suporte a outras mulheres pois essa sim é nossa natureza mais pura e onde mora nossa libertação inclusive para partos positivos e com prazer. Se pergunte por exemplo, como pode o parto ser tão insuportável se as mulheres na história tinham seus partos naturais em casa? Eu te repondo: sendo acompanhados por uma comunidade feminina que dava o suporte para que aquela mulher pudesse parir. Hoje as evidências científicas já nos trazem em números, os benefícios e entre eles alívio de dor do parto no suporte e apoio contínuo a essa mulher. A ciência cada dia mais nos mostrando que alguns "velhos costumes" são as alternativas mais seguras e saudáveis de se viver e parir.



O que é para você o protagonismo da mulher na gravidez/parto/pós-parto?


Pâmela: Protagonismo da mulher é quando ela chega em uma consulta pré-natal por exemplo, e ao invés do profissional de saúde dar-lhe uma lista de exames para "cumprir tabela", ela seja informada quais as OPÇÕES de exames, para que servem, quais os benefícios e riscos, o que mudaria no cuidado e parto dessa mulher a partir do resultado desses exames. Qual o índice de erro que cada um deles pode apresentar.

Protagonismo é quando a decisão é da mulher. E decisão não é responder: "Ta bom doutor, muito obrigada!". Decisão Informada, quando o profissional de saúde sai do protagonismo e se lembra que o papel dele ali é servir, orientar e a mulher decide o que fazer. A mulher é a protagonista! O corpo da mulher não pertence ao sistema, aos profissionais, nem ao protocolo hospitalar. O corpo é da mulher, assim como o bebê e o parto!

Protagonismo da Mulher no Parto: é quando ela é a fonte das atenções, respeito e cuidado. Quando a equipe lê o que ela escreveu no seu PLANO DE PARTO, seus desejos para aquele momento, e cuidando dela a respeitem, a informem e compartilhem informação necessária e completa para que ela tome a decisão que quiser.

Tirar o protagonismo dessa mulher (entre muitas outras coisas) é ter o olhar voltado ao médico, e o que ele deseja fazer com o parto da mulher, dizer para a mulher "segura aí que o médico não chegou!"- como se ele fosse a peça principal daquele cenário. É ignorar as escolhas e preferencias dessa mulher, é fazer barulho onde é necessário o silencio, é acender as luzes quando se precisa do escuro, é privá-la de escolher quem ela quer ter ao lado, é inclusive invisibilizar a mulher como se o único fator importante fosse: o bebê nascer com saúde.



Diante de uma cultura misógina e patriarcal, como dar autonomia às mulheres em um momento tão importante como a gravidez e o parto?


Pâmela: Com Informação! É a primeira resposta que me vem, a mais importante talvez.

Sei que infelizmente hoje, no Brasil muitas mulheres não têm acesso ao mínimo para poder ter informação. Mas é preciso começarmos, de forma orgânica ou através de cursos e mentorias de preparo para o parto, e na conversa entre as mulheres, precisamos falar mais sobre partos, sobre eventos do nosso corpo feminino, sobre como nos sentirmos seguras o suficiente para a cada escolha de profissional ou a cada consulta médica, sermos donas da nossa voz, questionarmos mais, entender os porquês, pesquisar alternativas, (quando possível) mudarmos de profissionais quantas vezes forem necessárias... "ah mas eu confio no meu médico!" - Precisamos sair dessa cultura onde terceirizamos nosso parto e nossas escolhas, o que precisamos dizer são mais frases como: "Eu confio em mim, no meu corpo e no meu bebê!" E a qualquer sinal de que seu médico não respeita um processo natural e não te coloca na posição de protagonista, não relativize os pequenos detalhes!!! Mude de profissional! Para que aos poucos os profissionais comecem também a se questionarem e reverem o padrão de atendimento baseado no "deus médico" estabelecido, onde o médico jamais erra, "o médico sabe o que faz!"... Com essa última preciso concordar, em confortos médicos temos ouvido muito o quando os partos "precisam encaixar na agenda" e no "faturamento".... Parto Normal, demora... cesárea em 30 minutos se fatura por uma cirurgia.... Ou a deixa pensar que eu faço parto natural e nas últimas semanas invento uma desculpa e a levo para uma cesárea, caso ela insista eu digo que só espero até 39, 40 semanas e induzo o parto para ela ter o gostinho de sofrer um pouco e eu poder dizer que "tentamos, mas teve que ser cesárea!"



Sabemos que a classe social é um determinante em todos os aspectos da vida, inclusive na gravidez. Como dar a chance de um parto respeitoso às mulheres que não podem pagar por isto?


Pâmela: Essa pergunta de todas é a mais difícil, precisamos de muitas políticas sociais que visam a mulher pobre e a menos que isso represente qualquer ganho financeiro ou economia para nossa sociedade capitalista, jamais será uma prioridade. Quero ter esperanças e poder dizer que um dia todas teremos internet, computador, ou mesmo comida na mesa, educação e um tempo para roda de mulheres onde os conhecimentos possam ser compartilhados e as mulheres se unam, se apoiem, e escrevam uma história de parto sendo as protagonistas, independente do acesso financeiro ... Mas não consigo imaginar como isso poderá se tornar uma realidade.

Atingindo o sistema com treinamentos em humanização do parto, seria trabalhar em paralelo, mas para que isso também aconteça precisamos de uma "provocação". Reclamações, processos judiciais aos montes entregando as violências obstétricas dos serviços... para que sintam no bolso e se movimentem em direção a uma mudança favorável.

Terceiro, a atualização e conscientização dentro das universidades de profissionais da saúde com olhar humanizado é urgente em todos os setores.

Enfim, já imaginamos que a mulher quanto mais vulnerável financeiramente, mais demorará a ser atingida pelas mudanças, na sociedade em que vivemos. Mas precisamos começar de algum lugar ou nunca conseguiremos chegar. Começamos com o que temos aqui e agora.



Quais são, na sua opinião, os maiores obstáculos enfrentados por mulheres que querem parir de forma natural e digna?


Pâmela: A desatualização dos protocolos médicos, dos profissionais e a desumanização.



Você acredita em um futuro no qual mulheres tenham liberdade para escolher como regular seus próprios corpos?


Pâmela: Acredito muito, eu sinto esse poder gigante dentro de cada uma de nós e olhando para a história nos últimos 100 anos tivemos muitas mudanças, não acredito que seja da noite para o dia. Mas hoje estamos aqui falando de parto, de direito e liberdade da mulher e educando nossos filhos de uma maneira diferente, buscando essa mudança.... Ela está acontecendo! Hoje olho para minha filha de 11 anos, ela conhece sobre parto e direitos o que eu conheci com quase 30. Ela já compartilha reflexões com as amigas, já critica as desigualdades e o machismo em pontos que nem eu mesmo havia parado para refletir.

Nosso trabalho na maternidade nos tira sim de um pódio social e no mercado de trabalho muitas vezes, mas também é uma forma de revolução.



Para mulheres que irão parir em breve ou acabaram de fazer a travessia, o essencial, em uma frase.


Pâmela: "Retire-se do mundo externo se entregue ao seu processo e se acolha. Você está renascendo na sua melhor versão!"



Conte um pouco mais sobre seu trabalho e onde pode ser encontrada nas redes para maiores informações.


Pâmela: Para brasileiros em qualquer lugar do mundo, atendo de forma online no preparo para o parto.

No Instagram: @Pamela_Parto (muita informação gratuita e de qualidade, e também onde pode entrar em contato para fazer a Mentoria de Parto.)



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