• Ana Margonato

Entre elas - Com Naiana Branchini

Atualizado: 29 de mar.



Sou uma mulher apaixonada pela vida, e uma parte dessa paixão é a busca pelo autoconhecimento, penso que se eu passar por essa vida sem me conhecer, sem aprofundar um pouco nessa descoberta de quem sou eu, não teria sentido, e isso permeia olhar para o outro, olhar para o outro é também me ver, me ver nos desconfortos que esse outro pode me causar. tenho sede por mudança, transformação e criação. Amo um happy hour com meu marido e com amigos, amo comer doce, amo dias ensolarados e viajar. Sou mãe e considero a maternidade como um portal para a escola da vida. Sou feminista, antirracista, antibolsonaro, de esquerda e tenho dificuldade em lidar com opiniões opostas a essas. Sou corinthiana, mas odeio futebol, sou taurina, mas não acredito, em signo, sou cristã, mas não gosto de religião. Meu trabalho cruza com tudo que sou e penso, é sobre criar, transformar e fortalecer o coro para a liberdade feminina, acredito na moda como ferramenta de transformação individual, mas também coletiva.




Trabalhar como personal stylist, foi algo que sempre lhe ocorreu ou aconteceu no decorrer da vida?

Naiana: Trabalhar com moda, sempre esteve em mim, mas só aceitei essa possibilidade depois da maternidade. Desde a infância, usar a roupa como forma de expressão, criar sobre tecidos e peças do meu armário era muito natural, costurar, cortar, imaginar, montar composições, experimentar roupa, era uma brincadeira. Porém, a moda transita entre o banal, o glamour, o consumo e também pela expressão e transformação. Pensei em fazer faculdade moda, mas o banal pesava na escolha da profissão. Após virar mãe, senti a vida de outra forma, o tempo escorre e a necessidade de se colocar pra fora é urgente, sem mais abafar ou anular. Como se fosse um chamado pra ser quem de fato sou em todas as esferas, a maternidade me libertou (num processo longo e infinito) e voltei a pensar no trabalho, mas o trabalho tinha que ter sentido pra mim, dai veio a transição de carreira, de veterinária pra personal stylist, que une moda, criação e transformação.



Como você vê o vestir-se para além da roupa?

Naiana: O vestir é tanta coisa, passa pela forma como nos apresentamos ao mundo, aí entra comunicação, mas também classe social, opressão, liberdade, personalidade, status, profissão, consumo, sentimentos, autoestima, privilégios ou falta dele... De uma maneira geral toda mulher deseja se sentir bem na própria pele, a roupa tem também esse papel, de ajudar a trazer sensações, auxiliar na criação de uma identidade única e na forma como nos vemos e cuidamos.



Diante de uma indústria da moda que escraviza mulheres com cobranças de padrões incompatíveis com a realidade, como se dá o seu trabalho perante este cenário?

Naiana: Aí é que está o viés da moda que me encanta, o viés que bate de frente com essa questão. e utiliza a moda, a moda do dia-a-dia, como ferramenta de transformação individual, mas também coletiva. Meu trabalho é ajudar a mulher a encontrar um caminho de liberdade e satisfação no vestir, alinhado aos seus objetivos de vida. É muito comum a gente, como mulher, se vestir para agradar, para ser aceita, para passar desapercebida, pra esconder... ao invés de usar as roupas para “bel prazer”, de forma autêntica (verdadeira) que realmente faça sentido. Mas não é simples quando se nasce mulher num sistema capitalista-machista, que nos induz a odiar o próprio corpo. Não somos as culpadas por ter tantas neuras com o corpo, mas podemos tentar mudar essa auto percepção e o vestir pode ser uma boa ferramenta para a quebra desse ciclo.


Como cuidar da casa corpo através do vestir?

Naiana: O vestir pode ser um meio de conexão consigo mesma, pode ser aquele momento em que você se olha e põe sobre o corpo elementos que irão compor sua imagem. Na prática a gente se veste no automático, porque a vida é corrida, mas não podemos esquecer que nós somos corpo, não só intelecto. O que colocamos sobre corpo irá causar sensações que podem ser boas ou ruins. Uma roupa não pensada pode causar desconforto e atrapalhar o dia. Cuidar de si através do que põe sobre o corpo passa por unir conforto, gosto pessoal e intenção.



Qual a maior dificuldade apresentada pelas suas clientes? Você relaciona este fato com o sistema capitalista e patriarcal que vivemos?

Naiana: Sem dúvida a maior dificuldade das minhas clientes é fruto da insegurança, que foi plantada ali desde cedo e fortalecida ao longo da vida por esse sistema. A indústria lucra com as nossas neuras. Aí é comum ouvir, “posso mesmo usar esse tipo de roupa?” Ou “quero me vestir assim mas tenho receio pelo que vão falar” ... o corpo da mulher é motivo de noticia, de assunto, é um corpo que existe, não passa ileso, sabe? Isso nos aprisiona, nos impede de sermos livres e nos faz perder tempo pensando em como mudar o que na verdade nos é natural. Defender só um tipo de beleza é de certo modo não observar a natureza.



O que é autocuidado para você? Como aplica-lo no vestir-se?

Naiana: Autocuidado para mim, é ter noção do que é que eu preciso fazer para estar bem comigo mesma e com meu entorno, fisicamente e mentalmente. Essas ações que me promovem bem estar podem variar de acordo com a fase em que me encontro. No geral é exercício físico, terapia e momentos de solitude. Estar só é essencial, é como se nesses raros momentos, eu pudesse me ter só pra mim e juntar os pedacinhos novamente pra seguir em frente.

Autocuidado no vestir, é saber exatamente qual composição irá te proporcionar o que precisa para aquela ocasião, desde ficar em casa, ir ao trabalho ou para momentos de lazer.



É possível uma indústria da moda sustentável?

Naiana: É bem complexo esse tema, nesse ponto não sou muito otimista, mas posso estar enganada, o que seria maravilhoso! Infelizmente acho que não viveremos para ver a indústria da moda ser sustentável. Capitalismo veio para a destruição do meio e enriquecimento de bolsos, se o sistema não mudar acho difícil. Outro ponto é que a maioria das roupas ditas como sustentáveis são inacessíveis, são caras demais, então só uma pequena parte pode adquirir. O forma mais sustentável de consumir é través das peças de segunda mão, a roupa mais ecologicamente correta é sem duvidas aquela que já existe.

Nós como seres da sociedade não podemos aguardar que a indústria mude, é um trabalho de formiguinha, aplicar o conceito no próprio modo de se vestir e consumir roupas e passar a ideia para as próximas gerações. Aplicar a ideia no próprio guarda-roupa é possível, transformando peças, reformando, fazendo bazar de troca, comprando de brechó... é colocar o conceito da economia circular na prática, mantendo a vida útil da peça sem que ela vire lixo. Imagina se grande parte da população parasse de comprar, ou comprasse bem menos, a indústria seria obrigada o mudar. Com o tanto de roupa que já existe no mundo, não há necessidade de produzir da forma como é hoje.



O que você acredita ser possível fazermos enquanto sociedade para transformar a moda em algo acessível e ferramenta de expressão para corpos que se movem e possuem vida?

Naiana: Moda ser acessível é uma questão bem ampla, mas que tá acontecendo lentamente, antes não se via a diversidade, o padrão escondia corpos reais... hoje vejo mulheres cadeirantes, anãs , gordas, magras, altas, baixas, negras, brancas, jovens, velhas... trazendo a moda pra si e levantando essa bandeira, pra dizer que também existem e podem fazer o uso de suas roupas para comunicar. Tudo é político e a moda pode ser usada para dar luz a essa questão.



Conte um pouco mais sobre o trabalho, todos os serviços que você oferece e onde pode ser encontrada.

Naiana: Meu trabalho é ajudar a trazer liberdade e satisfação para o vestir, é ajudar a mulher a usar a roupa do jeito que sempre desejou, é também ajudar a mulher a usar a roupa como ferramenta, de maneira estratégica para comunicar o que precisa, sendo um ponto complementar para auxiliar no alcance de seus objetivos. Quero ver olhos brilhando ao se olhar no espelho e sentir que as escolhas feitas fazem total sentido. Porque roupa é pra ser feliz e não pra trazer mais conflito.

Você me encontra no Instagram 😊 lá tem um pouco de tudo, minha visão de vida, um pouco da minha rotina, conteúdo para pensar o vestir de outro jeito. Meu site está na bio do insta, no site tem informações detalhadas sobre os serviços de consultoria de imagem e estilo.




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