• Ana Margonato

Entre elas - Com Luana Almeida

Atualizado: 29 de mar.



Luana Almeida é Feminista, Naturóloga, Educadora Menstrual, especialista em Educação Somática (Técnica Klauss Vianna), trabalha com práticas de autogestão em saúde da mulher e estudo as narrativas sobre menstruação, cultura e corpo.



Como foi o seu encontro com a Naturologia?

Luana: Eu sempre tive a intenção de atuar na área da saúde, e a Naturologia me trouxe uma grande possibilidade de pensar saúde através de outras perspectivas. A ideia de observar o indivíduo de forma integral, considerar o ambiente, o contexto sociocultural, a sustentabilidade, e a autonomia como caminhos para busca de autoconhecimento e manutenção da saúde foram cruciais para que eu optasse por seguir nessa profissão.



Você trabalha também com educação menstrual, quais caminhos te levaram para esta temática?

Luana: Com o passar o tempo, meu foco se estabeleceu na saúde da mulher, sendo assim, compreender o ciclo menstrual e se tornou imprescindível para construir uma prática cada vez mais assertiva e integral. A partir dessas dinâmicas fui sentindo a necessidade de me aprofundar nas narrativas acerca do corpo feminino e de suas funções. Me centrei na construção histórica, na abordagem cultural e política que envolviam os temas como a menstruação, a sexualidade, a fertilidade, a reprodução, e a própria gestão da saúde da mulher. Através desses estudos, encontrei a Educação Menstrual, que além de inserir a menstruação no debate público, também busca criar práticas educativas que estimulem meninas e mulheres a compreender de forma aprofundada seus próprios corpos e o impacto dos tabus e estigmais menstruais na sua vivência pessoal e pública. A Educação Menstrual com certeza é uma ferramenta muito potente e importante para emancipação e autoconhecimento das mulheres.



O que é dignidade menstrual para você?

Luana: Primeiro é importante compreendermos que a menstruação é uma realidade do corpo feminino e que além de ser um tema que se relaciona diretamente com o conceito de saúde, a experiência menstrual é atravessada também pelas condições culturais, históricas, políticas, e econômicas que se desenvolvem no ambiente. Portanto, quando nos referimos ao termo “dignidade menstrual” estamos dizendo que todas devem ter uma vivência menstrual saudável, digna, com acesso a produtos e informação de qualidade, livre de privações, culpa ou descriminações. Menstruar com dignidade é um direito humano e precisa estar nos debates públicos. A distribuição de insumos menstruais é só a ponta do iceberg.



Na sua opinião, qual o maior desafio enfrentado hoje pelas mulheres e outras pessoas que menstruam no Brasil?

Luana: Entender a menstruação como questão de saúde pública e de direitos humanos é fundamental para que políticas públicas se estabeleçam, no Brasil, há alguns obstáculos a serem enfrentados, recentemente tivemos o veto presidencial para o Projeto de Lei 4.968/19, de autoria da deputada federal Marília Arraes (PT-SE) que instituía a oferta de absorventes para meninas e mulheres em situação de vulnerabilidade social. Outra questão muito importante é que os insumos menstruais deveriam ser considerados item de saúde básica e deveriam ter preços acessíveis ou distribuídos de forma gratuita através de programas do governo, mas hoje o que acontece no país é exatamente o oposto, pois temos uma das maiores tributações cobradas sobre absorventes. Para além dessas questões, é importante ressaltar que muitas coisas devem ser feitas, é necessário criar e investir em pesquisas, precisamos saber das demandas de cada comunidade e de cada região, para que seja ofertado um serviço assertivo e eficiente que culmine em transformações sociais reais. Resumir o tema dignidade menstrual a distribuição de absorventes é reduzir o debate político, e esvaziar o conceito. Não podemos esquecer que o capitalismo anda de braços dados com o patriarcado, e que as indústrias de “cuidado feminino” são movidas pelo lucro. Temos muito caminho a percorrer, por isso é importante seguirmos falando sobre a menstruação.



Qual o preço pago por ser uma mulher e sangrar?

Luana: O preço que se paga por ser mulher em uma sociedade patriarcal é alto, ainda mais quando acrescentamos o sangue menstrual a esse corpo de fêmea. Uma das coisas mais complexas que vivenciamos através do estigma da menstruação é a exclusão da vida pública, do trabalho, do esporte e da escola, tendo em vista que meninas se ausentam desse espaço não só por não ter acesso aos insumos, mas por medo de se manchar e ser rechaçada, estigmatizada. Os espaços públicos em sua grande maioria não são preparados para que a vivência menstrual de meninas e mulheres seja íntegra, muitos lugares não tem o básico nos banheiros, assim como papel higiênico ou torneiras com água. Sem contar que as crenças que estão enraizadas na sociedade também restringem nosso acesso a atividades simples como práticas religiosas (levando em consideração que em algumas religiões as mulheres ficam afastadas das suas práticas durante os dias da menstruação) ou atividades do cotidiano, como praticar algum exercício físico ou até mesmo cozinhar, quem nunca ouviu que nos dias da menstruação não se pode fazer maionese? É exigido de nós um corpo “amenstrual”, quando sangramos temos que esconder qualquer mancha, mesmo que seja mínima, temos que esconder nossos absorventes, cochichamos com nossas amigas para que ninguém escute, colocamos apelidos na menstruação para nossa comunicação passar desapercebida, chamamos de chico, de regra, de lua, naqueles dias, mas o nome MENSTRUAÇÃO raramente aparece, ele é considerado impuro, indigno, a sociedade patriarcal é cruel, precisamos nos apagar, precisamos mascarar nossos corpos a todo momento, e durante a menstruação isso acontece mais ainda. É certo que muitos dos tabus, crenças e estigmas são fundamentados na misoginia, o ódio contra as mulheres é algo presente na construção da sociedade.



Menstruação e classe social, como se relacionam?

Luana: Como a menstruação deve ser compreendida a partir das relações culturais, sociais, políticas e econômicas, não há possibilidade de não analisarmos os recortes de raça e classe. É necessário observar todo o ambiente no qual as meninas e as mulheres estão inseridas, as dinâmicas e hierarquias estabelecidas no território para de fato criarmos estratégias que atendam e que promovam mudanças necessárias. A relação entre menstruação e classe tem sido ignorada, invisibilizada, e reduzida ao acesso de insumos menstruais isso se torna um problema pois quando invisibilizamos uma condição, anulamos a possibilidade de debate e excluímos ainda mais as meninas e mulheres do espaço público.



Você acredita que educação menstrual é uma questão devidamente abordada pelo feminismo?

Luana: A menstruação sempre foi tratada no âmbito privado, relacionada a experiência individual. Com o avanço da agenda feminista e dos debates referentes ao corpo das mulheres na sociedade, esse tema tem ganhado um espaço de discussão, mesmo que ainda tenha menos visibilidade do que outros temas, é uma pauta que precisa ser abordada pelo feminismo, é através dessas perspectivas que entendemos como as dinâmicas sociais, as estratégia de dominação masculina e o patriarcado controlam as narrativas e as percepções que criarmos com relação aos nossos corpos.



Como acabar com a pobreza menstrual?

Luana: Para assegurarmos uma vivência menstrual digna é necessário desestigmatizar a menstruação, compreender ela como um processo fisiológico natural do corpo feminino, é importante e urgente levar essa pauta para os debates públicos, fomentar iniciativas voltadas para Educação menstrual, democratizar o acesso de meninas e mulheres às informações relativas aos seus próprios corpos e aos insumos menstruais.



Conte um pouco mais sobre o trabalho que você oferece e onde pode ser encontrada.

Luana: Me formei ano passado através da “Escuela de Educación Mesntrual Emancipadas” e desde então venho desenvolvendo projetos de assessoria, workshops, e atendimentos que priorizam e incentivam a criação de novas narrativas a respeito da menstruação e do corpo feminino, conduzindo um caminho de investigação, autopercepção e autonomia. Meu espaço físico atualmente se localiza em Jaguariúna, e os trabalhos remotos podem ser solicitados pela página no Instagram (@artemisia.luana) ou telefone (17 996336679).


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