• Ana Margonato

Entre elas - Com Kátia Sartori




Nascida e criada na periferia da zona sul da cidade de São Paulo, onde morou até os 18 anos. Saiu de lá para fazer uma graduação em São Carlos. Formou-se em Educação Física pela UFSCar. Talvez por ter estudado a vida toda em escola publica, e também pelo envolvimento no movimento estudantil durante toda a graduação, sentiu-se na responsabilidade de trabalhar na escola publica, e ingressou na rede estadual de educação em 2006.

Começou a militar no PSTU em 2007. Participa do sindicato estadual de professores Apeoesp. Milita no movimento sindical e em um partido político na perspectiva de avançar na defesa do ensino público, gratuito e de qualidade para todos e na transformação de um projeto político socialista para o nosso país.





Como foi na sua história, tornar-se professora?

Kátia: Ingressei na universidade pensando mais em uma formação em bacharelado. Durante a graduação fui me envolvendo mais com o tema da educação e optei por seguir na licenciatura. Considero que minha trajetória na universidade, em participar de projetos de pesquisa e extensão, também meu envolvimento com o movimento estudantil, trouxe outras reflexões além das questões acadêmicas, que influenciaram no meu envolvimento com o tema da educação e o tema da responsabilidade social com a educação publica.

Ser professora para mim é um desafio diário. Temos muito a aprender com os estudantes e essa prática diária vai transformando a visão deles sobre o ensino, mas também a nossa. Mas para além dos desafios educacionais, existem barreiras estruturais gigantescas nas escolas públicas, que são impostas por políticas de governo que não encaram a educação como uma prioridade e temos muitas lutas no caminho para avançarmos em projeto de educação de qualidade.




Ensinar é um ato revolucionário ou um ato de resistência?

Kátia: Ensinar penso que pode ser um ato revolucionário e de resistência no sentido de que a educação é uma ferramenta importante para impulsionar uma ação mais reflexiva, crítica de mundo, fortalecendo a possibilidade de mudanças. A possibilidade de uma formação de qualidade oferece maiores possibilidades para a juventude ir se posicionando no mundo e tendo realmente possibilidades de escolhas sobre seus projetos de vida. Porém, a estrutura educacional de ensino atual tem muitos problemas que impedem esse desenvolvimento real da educação. Quando nos deparamos com tais problemas acho que temos uma postura mais de resistência. Em 2015 por exemplo, participei de uma greve de professores de 3meses. Na época o governador de SP era o Alckimin, que nunca dialogou com a categoria, sempre enviou as tropas da PM para bater nos professores. No enfrentamento com um estado que desvaloriza a educação, ensinar também deve ser resistência.




Como você vê o ensino e a estrutura das escolas atualmente?

Kátia: Eu considero que a educação está muito longe de ser uma prioridade em nosso estado e no nosso país. Existem inúmeros problemas estruturais na escola que dificultam o processo de uma educação de qualidade. Vou tentar citar alguns temas:


A escola publica segue cada vez mais uma logica empresarial, de números e resultados. Por exemplo, os governos atrelam programas como progressão continuada, bonificação por resultados, para “resolver” o problema da evasão escolar e de reprovações. Além de não resolver o problema do ensino, cria outros obstáculos nesse processo.


As escolas estão cada vez mais sucateadas, com salas superlotadas mesmo em tempos de pandemia e não existe um espaço de ouvir a comunidade escolar e buscar compreender os principais problemas do cotidiano das escolas, o que me leva a pensar em outro tema importante, que é o da gestão democrática. Temas centrais em torno da educação estão totalmente relacionados aos projetos de governo e não são debatidos com o conjunto da comunidade escolar. Por exemplo:


- Projeto de Ensino Integral – está em desenvolvimento no estado de SP ampliação do ensino integral. O projeto em si poderia ter vários pontos importantes para desenvolvermos, visto que o ensino integral pode ser uma demanda de parte das famílias de trabalhadores. Agora não é possível fazer esse debate sem considerar que existe uma parcela grande da juventude que são trabalhadores e precisam estudar no período noturno, inclusive esse número tem aumentado nesse cenário de crise econômica. As escolas de tempo integral em SP fecharam os períodos noturnos e deixaram essa parcela da juventude a sorte de conseguirem se deslocar para outras escolas ou abandonarem os estudos. Mas existem outros debates como a própria estrutura física das escolas, de espaços e materiais, que precisariam ser completamente transformados para atender a necessidade de escolas integrais.


- Novo Ensino Médio – é outro projeto que veio de cima para baixo, sem nenhum dialogo e já temos hoje nas escolas do estado, estudantes do ensino médio sem matérias básicas em seus currículos e algumas disciplinas sendo oferecidas à distância. Estamos aprofundando o abismo que existe entre os jovens que estudam nas escolas públicas e privadas.


- Valorização dos professores – Existe um problema grave de déficit de professores na educação pública. Isso se reflete em inúmeras aulas sem serem atribuídas. Muitas crianças e jovens estão indo para escola e tendo as “aulas vagas”, fruto desse déficit. Mas não existe uma forma de incentivo a docência, os salários rebaixados e a falta de estrutura deslocam muitos profissionais para procurarem emprego em outros setores. Em contrapartida, o governo do estado de SP, há mais de uma década, incentiva a contratação de professores temporários em detrimento dos concursos públicos.

No meu ponto de vista, esses são alguns dos temas centrais em torno dos debates estruturais. E aqueles e aquelas que estão todos os dias nas escolas, funcionários e estudantes, não têm um espaço democrático para opinarem e decidirem os rumos da educação.




O CCJ aprovou recentemente o projeto que permite homeschooling no Brasil. Quais os impactos desta decisão no cenário educacional brasileiro?

Kátia: O homeschooling reacende um debate na sociedade entre o papel do estado e da família na educação das crianças e jovens. Em minha opinião, aprovar a educação domiciliar é um retrocesso no processo de democratização do acesso ao conhecimento, a escola além de uma educação formal, é um espaço de interação social muito rico para o desenvolvimento do ser humano. O acesso a escola deveria estar sendo debatido como um direito e deveríamos estar encaminhando projetos no sentido de melhorar os diversos problemas estruturais localizados nesses espaços.




A tecnologia e o acesso a informação são aliados dos educadores? Como direcionar os jovens para um bom uso destas ferramentas?

Kátia: Penso que sim, a tecnologia e o acesso a informação são aliados. O período de maior crise da pandemia nos levantou muito a necessidade desses recursos na educação. Agora é necessário discutir seriamente os problemas relacionados ao acesso a tecnologias. A desigualdade de acesso, tanto das ferramentas como das informações é muito grande. A escola pode ser um espaço de aprofundar também esse conhecimento e utilizarmos a tecnologia a nosso favor. Mas na prática ainda estamos distantes disso. Na escola onde trabalho, por exemplo, recebemos esse ano novos equipamentos como computadores, mas já estamos encerrando o segundo bimestre e não temos uma internet que nos permita utilizar os materiais. Para além disso, a internet é ferramenta fundamental nos dias atuais, mas também palco de desinformação, fakenews, etc. Sem aprofundar no desenvolvimento das capacidades de interpretação, reconhecimento de noticias falsas entre outros, a ferramenta perde seu potencial.




Quais os maiores desafios de um(a) educador(a) de uma rede pública no Brasil atual?

Kátia: Acho que muitos pontos que desenvolvemos aqui estão relacionados com esses desafios. O educador da rede publica tem a ousadia de se manter educador dentro de uma estrutura que não prioriza nem estudantes nem os profissionais da educação. Temos o desafio de avançar em uma organização coletiva, que possa ultrapassar os limites da categoria de professor e unir a comunidade escolar em defesa de uma educação publica de qualidade.




É possível sonhar com dias melhores?

Kátia: Acho que devemos sonhar com dias melhores e concretizar esses sonhos em muita organização e luta. A juventude tem um potencial de transformação surpreendente. A maior parte dos educadores está se desdobrando para tentar fazer seu melhor nas escolas, com as condições que cada um tem. Podemos somar essas potências.





Além de professora, é também militante socialista, como a militância se conecta com a Katia professora?

Kátia: Sou uma militante professora e não vejo como não estarem relacionadas. Meu trabalho como professora é parte de uma opção de vida, gosto do que faço apesar dos problemas da realidade. A militância é outra escolha de vida determinante para mim, o que me conecta a uma perspectiva maior, de defesa de um projeto político de país, onde a classe trabalhadora, que todos os dias é quem gira as engrenagens dessa sociedade, possa ter direito a uma vida plena. Esse é o futuro que eu quero construir junto com os jovens que hoje são meus alunos. Que eles tenham o direito a uma vida sem exploração, sem o peso das opressões. A educação pode nos oferecer ferramentas fundamentais, mas é a prática política que nos possibilita lutar por essa transformação.





Fale um pouco mais sobre sua militância e onde podemos encontra-la nas redes sociais ou outro meio de comunicação.

Kátia: Eu milito em Campinas, onde temos um diretório regional do PSTU. Nos organizamos em diferentes setores de trabalhadores. Participo da vida política da cidade, dos atos organizados pelo movimento, também em atividades, debates políticos, cursos organizados pelo PSTU. Queremos discutir com as pessoas que estão questionando essa estrutura de sociedade capitalista, que cada vez mais aumenta a exploração dos trabalhadores para aumentar a riqueza de meia dúzia de bilionários. A desigualdade social aumenta, e com ela aumentam as formas de violência, de opressões, de sucateamento dos serviços públicos. Nós queremos discutir que é possível construímos um novo projeto, socialista e revolucionário, que com base em uma democracia de fato para os trabalhadores. Mas para isso temos que nos enfrentar com aqueles que dirigem economicamente e politicamente esse país. Por isso não acreditamos que os projetos de conciliação de classe, que tentam unir velhas figuras da direita com setores de esquerda possam representar os interesses dos trabalhadores.

Enfim, temos muitas ideias para discutir. Vocês podem me encontrar nas redes:

Facebook: Professora Katia Sartori

Instagram: Kátia_pstu

Twitter: @katia_pstu




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