• Ana Margonato

Entre elas - Com Daniela Semeghini


Daniela Semeghini é psicóloga, formada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) no ano de 2013. Especialista em neuropsicologia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Cursando especialização em Análise Bioenergética no Instituto de Bioenergética de São Paulo (IABSP). Apaixonada e extremamente grata pela psicologia proporcionar tantas descobertas e transformações em sua vida, tanto no âmbito pessoal como profissional.

"Trago comigo a consciência da necessidade de me aperfeiçoar cada vez mais para oferecer um trabalho mais eficiente e qualificado para meus pacientes. Prezo pela responsabilidade de desenvolver um olhar empático, respeitoso e acolhedor para que as pessoas encontrem em meu espaço a busca pelo autoconhecimento e o alívio e compreensão de suas dores e paixões".



Como a psicologia cruzou sua história?


Daniela: Quando era criança e os adultos me abordavam com aquela pergunta clássica – “o que você quer ser quando crescer?” – a minha resposta nunca foi Psicologia. Naquela época eu não sabia nem que existia essa profissão. Quando questionada eu respondia que queria ser veterinária, médica de criança e até já tive o desejo de ser astronauta (e que criança nunca teve esse desejo, né?). A Psicologia entrou de fato na minha vida durante a adolescência. Nessa época tão confusa, iniciei um processo terapêutico para ajudar na escolha de uma profissão e após os primeiros testes de orientação vocacional (tanto na terapia, como na escola) a profissão de destaque foi Psicologia. Fui me aprofundado mais nessa escolha e também me encantando com o trabalho desenvolvido pelo meu psicólogo da época. Porém, quando entrei na faculdade, fiquei extremamente em dúvida se realmente era isso mesmo que eu queria (mesmo tendo trabalhado bastante essa escolha) e fiz uma reunião familiar dizendo que iria mudar para Medicina Veterinária. Não fui adiante com essa decisão (hoje agradeço por isso, pois acho que não daria conta de ser médica veterinária), me formei em Psicologia e sinto que até hoje, depois de um dia com altas doses de emoções intensas, que mantenho minha capacidade de sonhar e me apaixonar a cada dia por essa profissão tão linda.



Visto que até o século XIX não existia a psicologia enquanto profissão. No seu entendimento, qual a função social da psicoterapia nos dias atuais?


Daniela: Acredito que em primeiro lugar, devemos elucidar que o individuo precisa ser visto dentro da psicoterapia na sua dimensão biopsicossocial. A partir dessa visão integral do sujeito, o psicólogo busca auxiliar o mesmo na compreensão da sua história, suas relações sociais e no contexto em que está inserido. A principal função da psicoterapia é proporcionar mudança da relação do individuo com o meio e com os demais, e para isso acontecer, devemos ajudar no desenvolvimento de um saber crítico sobre si e sobre sua realidade, e a partir dessa mudança de olhar para a realidade podemos abrir portas para as verdadeiras mudanças e transformações.



Vivemos na sociedade do cansaço. Como isto chega para você enquanto terapeuta?


Daniela: A sociedade do cansaço já se tornou uma epidemia da vida contemporânea – rotina acelerada, acúmulo de responsabilidades e compromissos, a valorização do individuo como multitarefas, o excesso de positividade – tudo isso chega no consultório como uma avalanche. O que me chama a atenção é o quanto isso tem chegado para nossos jovens e o quanto eles estão adoecendo por conta dessa condição. Atendo adolescentes de 13, 14 anos com rotinas tão sobrecarregadas de compromissos, agendas cheias de responsabilidades, cobrança de alcançar altas performances para conseguirem ser aceitos e obter um lugar de destaque, mas no final o que eles realmente acabam conquistando são os transtornos de ansiedade, depressão, Burnout e em alguns casos chegam até ao suicídio. Isso de fato é muito grave, por isso devemos trazer consciência que precisamos estabelecer limites saudáveis, aceitar que em muitos momentos existirão falhas, que a vida não precisa ser uma grande competição e que devemos agregar valor positivo ao tédio e ao ócio.



A medicalização da existência humana é hoje algo já inserido na sociedade e normalizado. Qual a consequência disto a longo prazo? Como se dá a relação medicamentos x terapia?


Daniela: Existem duas situações para serem analisadas com cautela quando falamos sobre medicalização e psicoterapia. Em muitos casos, o acompanhamento psiquiátrico, com um profissional qualificado, associado com a psicoterapia, é fundamental para a garantia de um melhor resultado no tratamento de pacientes que são diagnosticados com algum transtorno, como por exemplo, depressão, bipolaridade, ansiedade. O trabalho multidisciplinar traz grandes benefícios, pois garante a manutenção da saúde mental com mais efetividade e qualidade. Do outro lado, temos pessoas que buscam nos remédios a solução para “enfrentar” seus problemas cotidianos, como se fossem pílulas mágicas, e se livrar de sentimentos que não estão conseguindo lidar em certo momento. O livro “Voltando ao Normal” do psiquiatra americano Allen Frances traz uma critica de como a Psiquiatria vem reduzindo os espaços da normalidade na vida contemporânea e transformando emoções e comportamentos comuns em algo patológico. Isso causa sérias consequências quando pensamos ao longo prazo, pois as pessoas vão perdendo aos poucos a capacidade de superar seus problemas e de compreender e lidar com suas emoções. E é nesse ponto que entendemos a importância da terapia – falar sobre suas emoções, sobre si, sobre seus sentimentos – faz com o indivíduo tenha mais consciência sobre seu funcionamento emocional e amplie sua visão sobre suas aflições. Por isso, a medicalização só pode ser vista como problema quando é usado sem consentimento médico e como forma de substituir um enfrentamento comportamental por uma solução rápida.



Na sociedade contemporânea em que vivemos, mesmo diante da exaustão anunciada, os psicotrópicos continuam sendo mais buscados do que a terapia, porque?


Daniela: Percebo que cada vez mais as pessoas estão em busca de soluções rápidas e mágicas para se livrarem de uma situação de angústia ou de algum problema que estão enfrentando. Isso acontece até na terapia, quando os pacientes perguntam se eu garanto que em 1 ou 2 meses aquela queixa já estará resolvida. Nesse momento eu sempre explico que a terapia é um processo, e o tempo é algo difícil de ser previsto e que no fundo, nem é esse o objeto da terapia – você precisa de tempo para que as coisas comecem a dar certo, para que aconteçam as transformações. Por isso, acredito que essa busca imediatista da “cura” dos problemas tem levado as pessoas a buscarem mais os psicotrópicos do que a terapia. Muitas vezes os pacientes ao usarem uma medicação se sentem bem e até eufóricos, mas nem sempre isso será sinal de melhora ou de cura. Infelizmente seus problemas não serão resolvidos com uma pílula mágica, então devemos fugir de todos os tratamentos que vendem uma cura milagrosa, seja por meio de medicações, seja por terapias. Transformações levam tempo, exigem esforços, então vale ressaltar novamente a importância da avaliação e acompanhamento médico quando necessário associado com a psicoterapia para a busca de uma boa saúde mental.



O Burnout tem sido cada vez mais comum hoje em dia, o que isto diz sobre os rumos que a sociedade vem tomando dentro do sistema capitalista?


Daniela: A síndrome de Burnout ou síndrome de Esgotamento Profissional é um distúrbio psíquico que foi descrita em 1974 pelo médico psicanalista Herbet Freudenberger. Sua principal característica é o estado crônico de estresse e tensão emocional provocado por um ambiente e condições de trabalho desgastantes. Os principais sintomas são: isolamento, fadiga, estresse, insônia, disfunções sexuais, dores, exaustão emocional, enxaqueca, gastrite, úlcera, entre outros. Nosso sistema capitalista tornou o homem cada vez mais um explorador de si mesmo, e pior, fazendo com que ele se sinta útil e eficiente nessa condição. Isso transformou nossa sociedade disciplinar para uma sociedade de desempenho, em que o valor do trabalho é dado na capacidade de executar várias funções, a qualquer tempo e com escassez de recursos. Essas mudanças estão impactando na saúde do trabalhador, tanto na esfera física como emocional, transformando o ambiente de trabalho numa fonte de doenças, sofrimento, insegurança, competição, controle e baixa qualidade de vida.



A psicoterapia é vista ainda como “último recurso”, que deve ser utilizada somente por quem “não está bem”, como você interpreta este estigma?


Daniela: Sim, infelizmente a psicoterapia ainda é vista como último recurso e procurada quando a pessoa “não está bem” e isso tem muito haver com a nossa cultura. A indústria do bem estar promove de maneira satisfatória a saúde do corpo. Vemos em outdoors pessoas com corpos saudáveis, nas academias, sorridentes e isso faz com que as pessoas sejam incentivadas a levarem a sério sua saúde física, e é lógico que não há problema nenhum nisso, muito pelo contrário. Mas e a saúde emocional? Porque não vemos nada sobre nossa psique, nossas emoções e comportamentos em panfletos e outdoors? A maneira como a psicologia é vista pela sociedade ainda é repleta de tabus. Psicólogo é coisa de gente louca, de gente doente ou que só deve ser procurado quando a situação já saiu do controle. Muitas pessoas sentem vergonha de falar que fazem terapia, pois é percebido como sinal de fraqueza, vulnerabilidade, de falha. Aos poucos nossa cultura e os profissionais da área precisam educar a sociedade sobre os benefícios do trabalho do psicólogo, associando com a promoção da saúde e não só com o suporte aos transtornos. As pessoas precisam criar a consciência de que assim como cuidam do corpo para não adoecer, cuidarão da sua saúde mental pelo mesmo motivo.



O atendimento psicológico no Brasil perpassa o critério “necessidade”, como citado na pergunta acima, mas tem como principal agente de acesso, a classe social a qual se pertence, porque?


Daniela: Existe uma ampla pesquisa sobre saúde mental realizada na grande São Paulo (São Paulo Megacity Mental Survey), publicada em 2012, e que teve como uma das responsáveis a psiquiatra Laura Helena Andrade, que é coordenadora do Núcleo de Epidemiologia Psiquiátrica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. A pesquisa aponta que casos de transtornos mentais são encontrados em todas as classes sociais, porém a pobreza é vista como fator determinante para uma maior tendência a depressão, ansiedade e abuso de drogas. Mesmo com a possibilidade de tratamento, a pesquisa destaca que menos de 10% dos casos recebem ajuda médica. O Sistema Público de Saúde oferece tratamentos psicológicos, porém o acesso ainda é muito difícil. A distância de quando se detecta o problema até a possibilidade de ser atendido ainda é muito grande. Acredito que por essas dificuldades e tantas outras que não foram mencionadas, como o acesso a informação de qualidade, falta de medicação psiquiátrica na rede pública e estigmas sobre saúde mental, os recursos de tratamentos como a psicoterapia e medicamentos mais eficientes ficam nas mãos das classes média e alta.



Como falar de saúde mental com pessoas que não possuem acesso a ferramentas de ajuda, como a terapia por exemplo?


Daniela: Acredito que a obrigação de tornar o acesso aos tratamentos e promoção da saúde mental seja tanto dos órgãos públicos com campanhas de informação, melhorias dos serviços públicos, como também dos profissionais que atuam nas redes particulares, proporcionando o acesso ao serviço com valores sociais e levando informações de qualidade e de forma simples com o objetivo de descontruir os estigmas que existem dentro da psicologia. A psicologia precisa romper as paredes dos consultórios e existir de forma mais efetiva nas comunidades, nos trabalhos, nas escolas, ou seja, a psicologia precisa ir em busca daqueles que precisam e não conseguem acesso, do que esperar que eles apareçam para nós.



Conte um pouco mais sobre seu trabalho e onde pode ser encontrada nas redes para maiores informações.


Daniela: Meu consultório fica localizado em Jaguariúna e atendo de forma online e presencial. Para mais informações é só entrar em contato com o telefone (19 9 9718 2042) ou pela página do Instagram (@psico_dani.semeghini).


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