• Ana Margonato

Entre elas - Com Carolina Dini





Carolina Dini é cozinheira, advogada, escritora e empresária à frente do Cebola na Manteiga, projeto que criou em 2016 para ensinar as pessoas a sentirem prazer cozinhando em casa.




Como sua relação com a cozinha passou de algo apenas prazeroso para uma profissão?

Carolina: Cursei Direito e trabalhei durante doze anos como advogada. Ainda exerço a profissão elaborando contratos, registrando marcas e opinando/conciliando causas extrajudiciais, mas ao longo dos anos percebi que não queria mais ter chefe e muito menos trabalhar de terno. A teoria do Direito se tornou uma decepção na prática e a partir daí tentei entender qual outra área me interessava. Até chegar nesse formato de produção de conteúdo, cursos e consultorias, eu fiz muitas outras coisas, como vender produtos que eu mesma cozinhava em feiras agroecológicas. Me permiti testar vários formatos e modelos de negócio, até chegar em algo que realmente pagasse meus boletos. Essa transição não foi fácil e durou muitos anos, me planejei bastante para isso.



As pessoas estão cozinhando cada vez menos, como você vê este acontecimento dentro do sistema que vivemos? Acredita na possibilidade de reversão deste cenário?

Carolina: Acredito sim numa mudança, desde que existam políticas públicas de incentivo à educação e à agroecologia. Com os alimentos cada vez mais caros, vejo muita gente optando pelos ultraprocessados para economizar dinheiro. O sistema capitalista consome nosso tempo e os ultraprocessados e deliveries funcionam como uma espécie de premiação no fim do dia corrido - as campanhas massivas nesse sentido têm reforçado esse modo de pensar. Sempre me lembro de uma campanha de 2020 do iFood, dizendo que "cozinhar em casa é muito 2003". Um produto pode até parecer melhor e mais barato. Porém, ao consumi-lo, causamos um impacto na sociedade que gera outros custos paralelos, como aumento na criminalidade, nos impostos (para investir em infraestrutura de cidades que crescem descontroladamente), maior gasto com saúde, etc. Por essas e outras não podemos culpar o indivíduo que ao invés de cozinhar em casa usa aplicativos de comida, pois o problema é sistêmico, estrutural.


Planejamento alimentar é um dos seus trabalhos. Seria a consciência de todo processo que envolve o preparo das refeições uma possível subversão deste distanciamento da cozinha?

Carolina: Se fosse algo ensinado nas escolas, sim. Mas meu trabalho tem um impacto ínfimo se formos pensar no cenário global do Brasil de hoje. Como consultora, ensino as pessoas a otimizarem o tempo delas na cozinha, mas é uma pequena parcela da população que pode me pagar e olhar para isso. É claro que o impacto do que faço é enorme dentro dessa bolha, pois cozinhar em casa realmente nos dá consciência sobre o todo e é um investimento no futuro, mas meu sonho é dar um jeito de levar meu Método de planejamento para as esferas públicas, estou me organizando para fazer acontecer.


Você cozinha alimentos “não convencionais”, que caminhos foram trilhados para chegar até eles?

Carolina: Conversando com pequenos agricultores eu passei a ter mais contato com alimentos que não estão nas gôndolas de grandes supermercados, por uma questão de comodidade e preço. As feiras foram um bom começo para olhar para esse outro tipo de comer, mais nutritivo e prazeroso, sem veneno. Precisamos lutar para que todos tenham esse acesso!



Conversando com seus clientes sobre o ato de cozinhar e todo o seu entorno, quais são as maiores dificuldades apresentadas pelas pessoas na cozinha?

Carolina: A falta de tempo! Todos nós da classe trabalhadora estamos cada dia mais consumidos por uma rotina de afazeres interminável, que se soma às tarefas domésticas e todo o resto. Eu mesma, se não me policiar, percebo que dá domingo e de repente estou ali "só vendo um e-mail para adiantar o trabalho da segunda-feira". Tenho tomado cuidado para realmente conseguir descansar uma vez por semana. Sinceramente acho triste ter que otimizar nossa rotina para dar conta do básico: nos alimentar. Espero que isso mude a longo prazo.



Comer é um ato político. Como vê o significado disto quando olha para a relação que a sociedade tem com a comida atualmente?

Carolina: Não tem jeito de falar de comida sem citar a destruição causada pelo agronegócio, os povos indígenas sendo afastados de suas terras, a cidade mudando de cor com a poluição, a desigualdade social... Qualquer pessoa que se disponha a estudar minimamente o contexto social e histórico da comida, vai tocar nesses pontos. O Brasil precisa de políticas públicas que contextualizem a importância da gente comer sem veneno, de valorizar a agroecologia... Por isso o meu trabalho toca nesses assuntos, que inclusive estão sempre à minha mesa.


Você lançou recentemente um livro de poesias que transita pela cozinha e faz das palavras um lindo conjunto comestível, por assim dizer. Como a poesia chegou até você e como surgiu a ideia de "casá-la" com a comida?

Carolina: Ao longo da escrita do livro, eu percebi que muitos dos poemas que escrevi nos últimos anos passavam pela cozinha, então os capítulos foram se encaixando e viraram um banquete. Quando pedi para uma amiga também escritora, Nina Rocha, editorar o livro, conseguimos montar os blocos que descrevem esse jantar acontecendo, desde a chegada das pessoas à mesa até a saída delas e faxina. Não foi algo planejado, simplesmente fluiu.


Qual seu poema favorito do livro? Se possível, poderia colocar aqui um trecho que lhe enche o coração e o estômago.

Carolina: A dupla de poemas que traz o título para o livro, "Com um pé voltado para a porta" e "Com os dois pés na cadeira", narram a história de uma mulher envolvida num relacionamento em que o parceiro sempre estava à espreita de ir embora, com um dos pés voltados para a porta, indicando sua semi presença. E quando ele de fato a deixa, ela percebe que a relação era uma projeção romantizada. A partir disso, a personagem consegue se sentir bem com sua própria companhia e comer as refeições que ela prepara para si, com os dois pés repousados na cadeira, presente naquele momento. Esses poemas foram escritos depois de uma aluna me contar como eram as refeições que ela tinha com um companheiro abusivo, ainda bem que hoje já não estão mais juntos. O outro poema, que de certa maneira é um desdobramento desses dois, é o "Metamorfose", que conta sobre a mudança que acontece quando a gente para de pensar que outras pessoas seriam capazes de completar algum vazio dentro da gente. Eis os poemas:


I. Com um pé voltado para a porta Quando cê resolveu ir embora Bateu tristeza de revirar barriga Enrugar a garganta Como se dez mãos a rasgassem de uma vez só Senti a elevação da pressão nos olhos clavícula e mandíbula deslocando fui franzindo finalmente a testa Tudo tudo na casa me fazia lembrar da parte mais bonita que ocupava meu corpo na sua presença: a vontade de comer apreciando Mas a minha fome naquele momento-abandono (depois descobri que me sentia assim há tempos) era de quem coloca sem perceber somente meia banda da bunda na cadeira não se dando permissão de sentar inteira

II. Com os dois pés na cadeira Tirei do cabide meu velho vestido amarelo amarrotado será que ainda cabe em mim? Me enfiei nele ajustei as alças passei de soslaio pelo espelho o belo decote desenhando meus peitos Segui pra cozinha fiz bambá de couve para recuperar minha meninice e talvez encontrar na receita amarela a extensão do meu amassado vestido Comi em algazarra silenciosa e estampei inteiro sorriso percebi meus dois pés na cadeira denunciando minha completude pousada bem ali

Fale um pouco mais sobre seu trabalho e onde pode ser encontrada nas redes. Carolina: Gosto tanto dos encontros com as pessoas que abri, em parceria com a chef Bruna Martins, o Espaço Casca, local para dar cursos culinários. Tem mais de dois anos que meu trabalho se voltou para as Consultorias de Planejamento Alimentar, que acontecem online e não vão deixar de fazer parte do meu dia a dia, mas eu também quero estar perto das pessoas, vê-las aprendendo a diminuir a distância com a comida que colocam no prato, perdendo o medo de fermentar vegetais, entendo o ponto das receitas... Eu gosto de criar banquetes com comidas vegetais que trazem memórias, então o maior elogio que posso receber como cozinheira é quando alguém come o que preparei e fala que lembrou de alguma situação ou de alguém.

E-mail: carol@cebolanamanteiga.com

Instagram: @cebolanamanteiga

Twitter: @cebolamanteiga

Newsletter: https://cebolanamanteiga.substack.com/

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