• Ana Margonato

Entre elas - Com Camila Saloto

Atualizado: 29 de mar.



Camila Saloto é jornalista, escritora, poeta e fotógrafa, além de mãe da Marina e do Leon. Vive atualmente na Alemanha e trás em sua arte todas as dores e alegrias de uma expatriada. Conversei com ela sobre seu processo criativo e como a arte se desdobra em sua vida.

Confiram o resultado desta entrevista!



Quem é você na fila da livraria?


Camila: Sou daquelas que adora sentar nas cadeirinhas ou no sofá da livraria, ler o livro quase todo por lá e assim que a conta bancária permite, comprar. Claro que isso ocorre com frequência no universo paralelo, pois neste sou mãe e os ponteiros do relógio não são amigos das mães. Parece que eles apostam corrida conosco! Então no momento, minha livraria infelizmente tem sido plataformas digitais. Mas sigo sonhando com as pazes com os ponteiros e o conforto das livrarias físicas.



Em qual momento da sua vida se viu como uma escritora?


Camila: Quando eu tinha uns 12 anos, nasceu o desejo de ser escritora, de ter minhas palavras impressas naquele amontoado de papéis que a gente chama de livros. Isto partiu com o apoio de uma professora da escola. Mas a gente cresce, a gravidade tenta nos colocar no nosso lugar: distante das nuvens. Mesmo assim, de vez em quando eu me permitia sonhar e meu mestrado foi um fator importante nisso. Mas daí engravidei e a gravidade novamente me jogou no chão e me mostrou o mundo como um cantinho de castigo constante para onde são levadas mães e crianças. Fiquei por muito tempo obedecendo o castigo até resolver me rebelar e passar a brincar mesmo que ainda de castigo, como já sempre fiz na infância. eu brinco hoje de ser escritora. É isso, eu sou escritora mesmo que me ridicularizem por isso, pois para mim, ser escritora é ter ideias presas na garganta desesperadas para saltarem em forma de palavras escritas no papel. Se não fazemos, essas palavras se rebelam e nos enlouquecem. Então minha rebeldia é na verdade a rebeldia destas palavras aqui dentro.



Como a maternidade atravessa a sua escrita?


Camila: Uma vez você falou sobre essa dualidade maternidade-escrita. Eu me reconheci na sua fala. Se por um lado, o exercício de cuidar e conviver com crianças parece ser aquela faísca de criatividade que é acesa em nossas vidas, por outro lado muitas vezes as ideias não podem ser libertas, pois como já disse acima, os ponteirinhos do relógio estão o tempo inteiro querendo nos derrotar. Então colecionamos as ideias num barril na mente enquanto não as podemos libertar e se não tomarmos cuidado, as faíscas de criatividade podem cair neste barril e tudo se explode.



Como é seu processo criativo e qual sua maior dificuldade na organização dele?


Camila: A escrita é um processo incrível de maturação. Quando eu estudava em Weimar, eu tive a oportunidade de ouvir uma palestra de um famoso fotógrafo: Olivieiro Toscani. E ele disse algo que demorou para eu entender, aceitar e assimilar, foi algo assim: "Quando eu pego um novo trabalho para fazer, eu assino contrato, depois sento na minha varanda, tomo um café e olho o mar. Minha secretária brinca comigo, diz que gostaria de ter também este tempo livre e não precisar trabalhar. Mas eu estou trabalhando. Eu trabalho dia e noite. Contudo, antes de eu sair com a câmera na mão e fotografar, eu me dou espaço para pensar. Eu fotografo primeiro com a mente. Só depois eu uso a câmera."

Demorou para essa ideia repercutir em mim, porém, faz pouco tempo, passei a me permitir escrever com a mente. Saio pelas ruas, vejo pessoas, lugares, paisagens, escuto relatos em conversas. Ali monto descrições, cenas, personagens, ambientações. Eu me permito sentir a água do banho escorrer na minha pele e elencar como cada neurotransmissor da epiderme trabalha em circuitos elétricos para que eu possa sentir o molhado quente que respeitosamente à lei da gravidade segue em direção ao chão, se despede do meu corpo, cada molécula de água, sem que eu nem mesmo perceba. Elas deixam algo delas e levam algo de mim. É um exercício do sentir consciente. Eu tento trazer para o concreto o abstrato que vaga na minha cabeça. Não fico apenas triste: fico numa paisagem cinzenta dentro de uma embarcação velha, com velas em fiapos que navega entre névoas numa caverna escura. Eu não fico feliz: eu volto a ser criança, de pés descalços na grama, corro, pulo, grito e como algodão doce numa quermesse. Eu tento transformar sensações e pensamentos em coisas tocáveis. Mesmo que não possa naquele momento escrever, eu trabalho com as palavras. Pois sendo mãe, além dos ponteiros do relógio serem os maiores vilões, quando eles sossegam um pouco, o seu tempo quase não te pertence. Os afazeres, as responsabilidades com as crianças que geralmente caem completamente no colo da mãe, são o que define o nosso próprio tempo. Para nós, resta um mínimo de espaço possível num canto do tempo. E neste mínimo a gente mostra que tempo é relativo, que rotinas são relativas e criamos coisas que em outros momentos da vida jamais seríamos capazes de criar em tão curto prazo. Einstein tinha razão!




Na sua opinião, quais os maiores desafios na vida de uma mulher escritora?


Camila: Eu quero aqui continuar a puxar o assunto para a ideia da maternidade. A gente pode falar de mulher escritora ou de toda mulher que tem o desejo em si de transcender: Nós temos sempre que fazer escolhas, tomar decisões. Quando vejo mulheres intituladas antifeministas, que tem agora infestado o Instagram, eu tenho um argumento que derruba toda a falácia delas: quando um homem precisa decidir entre carreira ou filhos? Trabalho ou família?

Às vezes nós vemos mulheres extraordinárias que são caladas e engolidas pelo tsunami maternidade. Não me refiro às crianças, que são a parte boa disso, que são seres cheios de personalidade e questionamentos que nos ajudam muito inclusive no processo criativo. Eu falo aqui sobre o peso da responsabilidade que temos que carregar sozinhas como mãe. Os dedos estão sempre apontados em nossa direção, muitas vezes até por nós mesmas, por toda idealização que nos permitimos cultivar antes de sermos mães de fato. A gente tem mulheres incríveis que mesmo mães se mantiveram na escrita, Clarice Lispector por exemplo. Mas são casos isolados, privilegiados, infelizmente, pois deveria ser um direito a mulher poder escolher ter uma carreira, mesmo sendo mãe sem ter que se sentir culpada por isso.

Agora eu pergunto: quantos homens foram pais e escritores? Por que eles podem? Por que eles conseguem? Por que tantas mães muitas vezes desistem da escrita por não conseguir conciliar a vida de mãe, muitas vezes de profissional que trabalha fora, de esposa? Será que o feminismo um dia vai conseguir nos ajudar a chegar neste equilíbrio? Eu vou considerar que o feminismo cumpriu seu papel no dia que nenhuma mulher mais tiver que se fazer a pergunta: Filhos ou carreira?



Se pudesse enviar uma mensagem para a Camilla quando ela pegou a caneta pela primeira vez, qual seria?


Camila: Vai doer, mas não solta.



Se tivesse que resumir sua vida em um único livro, qual seria?


Camila: Não é um livro, mas é uma série de quatro livros que acabei de ler: A série napolitana da Elena Ferrante. Eu me vi demais na personagem da Elena Greco, que se torna escritora. Apesar de às vezes odiar a permissividade da personagem. Contudo, sua luta em tentar compreender o mundo, pois ela vinha de uma família totalmente sem estudos, de tentar criar para si um raciocínio crítico como ela via em outros, seus questionamentos mais íntimos sobre suas reais habilidades, capacidades e conhecimentos, a sensação de ser uma impostora todo tempo, suas dificuldades em manter escrita e maternidade, além de tantas reflexões sobre a diferença entre o feminismo falado e escrito para o feminismo vivido no dia a dia que o livro traz... Foram tantos pontos que dava match que aquilo me desestabilizou. Eu terminei de ler essa semana e a sensação é que os personagens estão vivos no meu peito. Me pergunto se estão bem, o que estariam fazendo agora se fossem reais. Eu poderia citar muitos outros livros, mas no momento a sensação é que estou numa simbiose com esses livros da série e seus personagens.



Em quais projetos está trabalhando? Pode falar um pouco sobre eles?


Camila: No momento estou trabalhando numa história de uma jornalista que idolatrava uma mulher por suas posições feministas. Um dia trabalhar com ela. Tudo vai bem até ela começar a namorar um rapaz e depois descobrir que a chefe tem um affair com ele. Eu havia pensado em escrever este livro como uma literatura mais leve, mas o processo da escrita é como quando você vê o mar calmo, decide entrar nele e ainda na areia vem uma sucessão de ondas que tiram seu equilíbrio e te deixam a deriva da sua fúria. Muitas vezes a gente sai arranhadas da água. Com este livro eu estou vivendo isso.



Em quais redes os leitores podem lhe encontrar?


Camila: Obrigada pelo convite para esta entrevista, Ana. Admiro muito seu trabalho e estou muito na torcida por você. Quem quiser me acompanhar, siga meu blog: conversacrua.wordpress.com. Lá vocês também encontram o link para o blog de escrita criativa e minhas redes sociais. Obrigada mais uma vez e muito sucesso, Ana!



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