• Ana Margonato

Bolo de laranja é bom, mas já comeu batata doce?

Filha quer um pedaço de bolo de laranja?


Não, quero batata doce!




Ouvi essa resposta hoje e fiquei refletindo sobre o que é rotina e o que é exceção. Demorei um bocado de tempo pra perceber que as regras devem ser um norte, não uma prisão. Até pouco tempo atrás eu não conseguia ver as regras do manual ABNT materno como um indicativo do que de melhor se pode fazer, e que isso é reduzido muitas vezes a um único aspecto, que aprendizado é muito mais amplo que isso, e principalmente, algo bem individual.



Continuando a analogia do bolo de laranja, o cotidiano é a comida de verdade, o arroz e feijão, a amada batata doce. O bolo é o de vez em quando, aquele domingo a tarde, o feriado e, embora não esteja na cartilha como indicado, pode ser aquele momento que todos cozinham juntos, que tomam um belo café da tarde pausadamente e que será lembrado carinhosamente no futuro por todos.



Longe de mim dizer que as pessoas devem ter hábitos não saudáveis e usar a memória afetiva como "justificativa" para tal. Não é sobre isso a reflexão, mas sobre como o "não ideal" também faz parte do todo, e também importa. Nossa participação no desenvolvimento de nossos pequenos não se resume a uma criança saudável, que nunca comeu açúcar, que só tem brinquedos educativos e que estuda na mais conceituada escola da cidade.A vida é complexa e conhecer de perto aquilo que não se enquadra na caixinha de perfeito é vivência, bagagem para os tantos imperfeitos involuntários que surgirão nessa jornada mãe e prole, e principalmente, nos voos solos que darão.



É certo que a era digital trouxe, um mundo infinito para se conhecer sem sair de casa, a possibilidade de conhecer muitas outras mães e trocar experiências até então bem limitadas ao seu núcleo de convivência, mas também trouxe o tribunal da inquisição materna, uma fiscalização ferrenha do cumprimento da cartilha e uma necessidade sem precedentes de atingir a perfeição.



E isso pega mais que sarampo gente, principalmente nas mães de primeira viagem que depois do sono, a culpa é a segunda colocada no pódio materno e, com tantas regras inflexíveis e sem contexto com cada vivência e dinâmica individual, fica difícil perder a colocação.



Não se trata de dar adeus a inúmeros estudos científicos que comprovam tantas coisas que podemos fazer melhor que as gerações anteriores, isso importa, e muito. O fato é que a vida não é só isso, as regras não se mantém intactas, e não é porque você não é uma mãe boa o bastante para executá-las de forma ininterruptas, mas porque a perfeição não é factível mesmo, só existe no plano das idéias, por isso que são recomendações e não determinações inafiançáveis.



Estamos falando de seres humanos, tanto quem cuida, quanto quem é cuidado, é gente! e gente erra, muda de opinião, muda de lado da sala pra ver melhor. E o mais importante, aprende muito com tudo isso. As vezes a gente não pode ter tudo, o que muitos chamam de imperfeito é na verdade uma situação real que possui lado bom e outro não tão bom assim.



Quantas vezes não ficamos tentando adequar tudo nos conformes da bendita ABNT materno e no meio disso tiramos muitas chances de aprendizado dos pequenos. É o passeio que não fomos porque ia ter comida não muito saudável, o acampamento que "melhor não" porque pode ser perigoso, aquela viagem adiada por muito tempo porque a criança ainda não está na idade ideal para este programa.



As dualidades da vida estarão sempre presentes, quer a gente queira, ou não. Olhar para aquilo que não queremos que se torne rotina é fundamental e necessário, assim como ampliar a visão para o que aquilo trás de positivo e de aprendizado sobre a realidade que nunca foi, nem nunca será, perfeita.



Seguir a ABNT materna é bom, mas não esqueçamos das notas de rodapé e contextualizações dadas de forma individual e, de preferência, sem culpa.

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