• Ana Margonato

A vida é urgência

Dia desses uma senhorinha que morava aqui perto de casa partiu dessa para uma melhor, ou não. Em um dos nossos encontros pela rua ela havia me contado que comia apenas um sonho de padaria, uma vez ao mês, que era para não provocar a diabetes e também economizar uns trocados, fiquei pensando se ao menos lhe foi útil a economia, porque a diabetes, essa não se intimidou, nem teve misericórdia.


Conheci também um senhor de 99 anos que morreu após anos trancado em casa para não gastar, não sei se apenas o dinheiro ou também a paciência. Confesso que não consigo deixar de imaginar que lugares teria conhecido, que experiências teria vivido, se tivesse saído e usado seu dinheiro guardado ao invés de deixar para os filhos, que o transformaram numa espécie de entidade causadora de brigas, trapaças e desonestidade.


Já estava me esquecendo de Dona Joana, uma senhora que conheci nas idas ao supermercado bem cedo, horário que geralmente encontra-se apenas mães, crianças e pessoas idosas. Conversando na fila de pesar frutas e legumes, me contava que na juventude viajou bastante, mas após se casar, lá na década de 40, o marido não gostava muito de experiências novas e ela pouco conheceu do mundo após o casamento. Saudosa, falava das poucas viagens que fez após o nascimento dos seus três filhos e como gostaria de ter conhecido a cidade do México, lugar onde seu avô paterno havia nascido e vivido até os 10 anos de idade, pensava ser uma ótima forma de reencontrá-lo, pisando nas mesmas ruas que um dia seus pés, ainda meninos, haviam pisado.


Dona Joana morreu meses depois de me fazer tal confissão, estranhei sua ausência nas duas últimas idas ao supermercado, perguntei ao rapaz que geralmente pesava nossas compras sobre seu paradeiro, quando me contou que ela havia sofrido um infarto fulminante, foi encontrada pela cuidadora, após muitas horas do ocorrido. Morreu sozinha. Ao menos foi rápido. Teria encontrado finalmente uma forma de ver seu avô?


Dia desses estava indo à feira no sábado bem cedinho, como geralmente faço todas as semanas e no caminho me deparei com um acidente. Um carro havia atropelado uma pessoa que provavelmente estava atravessando a rodovia. Seu corpo, coberto com um material que mais parecia papel alumínio, ainda estava no chão, ao lado dos muitos carros de polícia que ali se encontravam. Aquela cena me inquietou. Fazia poucos minutos que havia olhado o sol nascendo e comentado com minha filha como o dia estava particularmente belo. Não para todos. Não para aquela pessoa embaixo daquele material brilhante.


Passei o tempo todo na feira pensando na brevidade da vida. No caminho de volta, o corpo ainda estava lá, sem vida, porém ainda embaixo do sol quente daquela manhã de sábado. Quem escolheria morrer numa manhã como esta? Realmente a ideia de que a gente não escolhe o momento ou hora que parte desse mundo me pareceu fazer algum sentido naquele momento, não consigo imaginar quem escolheria sua morte em uma linda manhã de sábado, dia em que se pode ir à feira, passear com o cachorro, sentar na varanda para tomar um café com calma.


A vida é urgência. Não no sentido mais comum que esta palavra é citada atualmente. Uma lista de deveres e protocolos a serem seguidos para alcançar um status que disseram ser necessário para garantir que está vivendo uma boa vida. Urgência no sentido literal. Urgência de vida, talvez traduza melhor o que quero dizer. Viver a vida na sua singularidade, crueza do próprio ato de aspirar oxigênio e expirar gás carbônico, estar presente onde quer que seu corpo esteja.


Pensei sobre os lugares onde meu corpo costuma estar, nem sempre estou com ele. Talvez seja hora de me atentar mais a isto, talvez seja hora de atender a minha própria urgência. Manhãs de sábado ensolaradas são ótimas companhias de um corpo que nem sempre anda acompanhado, penso se seriam o suficiente. Acredito que não, segundas-feiras também necessitam de uma certa atenção.


A urgência da vida, requer mais do que costumamos oferecer. A vida é urgente, e não há nada que nos contem ou prometam que possa mudar isso. Um papel brilhante, que mais parecia alumínio, às vezes é o que acompanha um corpo em um sábado ensolarado. Será que isso bastou?





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