• Ana Margonato

A mãe perfeita de cada dia...

Sabemos que o título de mãe perfeita é nobre, gera curtidas e juram que existe (dizem que mora lá no polo norte e é casada com um senhor barbudo que só anda de vermelho). Eu, particularmente, nunca vi, só ouço falar.


A verdade é que nós humanos, adoramos essa tal de perfeição, que é bem-quista pela sociedade (ainda), e a maternidade além de não sair ilesa dessa, é bombardeada por regras e deveres para se alcançar o título de mãe perfeita.


Essa questão é bastante complexa (e ao menos pra mim, interessante). Sabemos que até não muito tempo atrás esse maternar perfeito não existia, existia apenas o maternar. Assim como existia o silêncio das mães e a invisibilidade das crianças também, claro. Longe de mim dizer que era "melhor", apenas não era visto como relevante.


Com a luta das mulheres pelo espaço que muito lhe foi (e é) negado, a maternidade começou a se evidenciar, assim como as crianças começaram a serem mais visíveis na sociedade e com isso o assunto passou a ser mais abordado e as mães, colocadas como o foco da "solução" dos problemas que foram sendo elencados.


Inúmeros estudos comprovando o que é ou não indicado que as crianças façam, comam, consumam etc. A lista é grande e isso é ótimo. A ciência está ai para nos trazer dados que ajudam a melhorar o desenvolvimento da humanidade e nada melhor do que começar pelo começo, ou seja, pelas nossas crianças.


O ponto que trago aqui é a forma como se foi demandado à sociedade (leia-se às mulheres) às "melhorias" no cuidado com as crianças, que basicamente foi sobrecarregar mães que já eram sobrecarregadas, estipulando uma lista de coisas que se espera que ela faça aos filhos, sob pena de receber o título honorário de "menas mãe" se não cumprida.


Sem recorte social, de classe, cultural, nada. Uma lista x a ser seguida independentemente se você trabalha 12 horas por dia e gasta mais 4 horas de transporte público ou se você mora em um bairro de classe média, não trabalha fora de casa e contrata serviço de outras mulheres para lhe auxiliar no cumprimento da sua lista. As regras são iguais para todas, as cobranças tanto quanto e se você não cumpriu tudo é porque não se esforçou o bastante.


Esse é o ponto que quero expandir. O título de mãe perfeita (que não deveria existir), que reforça a cultura da meritocracia e que cria uma cortina de fumaça nas questões que são de extrema relevância discutir e propor mudanças.


Isso é mais uma forma de opressão e desvio do que realmente traria ambientes melhores às crianças, mulheres preocupadas em seguir as regras da cartilha da maternidade não tem tempo pra questionar padrões e lutar por direitos que traria à todas as mulheres melhores condições de cuidado e afeto aos seus filhos. Continuamos sendo somente mães, só que agora, perfeitas ( e aí de quem não seja).


A grande maioria das "regras" hoje impostas são bastante pertinentes, tem como base uma criança, que é um ser humano, que importa e que merece ser tratado com respeito e afeto. O problema é o foco, que é sempre a mãe, como se ela sozinha, fosse capaz de atender necessidades que obrigatoriamente precisam de mudanças estruturais, culturais e sistêmicas para que hajam condições da sociedade como um todo proporcionar bem estar e segurança à todas as crianças.


Cobrar posturas idênticas de mães de classes sociais, raça, gênero etc distintas é cruel e desproporcional. Sem contar que trás a ideia de que apenas ações individuais serão o suficiente para melhorar o mundo. Linda a ideia, porém nada viável ( apenas conveniente).


"Cada um faz sua parte" é uma forma eficiente de criar a falsa ideia de que sozinhos somos responsáveis por tudo e que não adianta cobrar do macro mudanças para todos, é o clássico "não faz porque não quer", recortes sociais são imprescindíveis e desconsiderar isso é no mínimo, injusto e desonesto.


A mãe perfeita não existe, nem nunca vai existir. O que podemos ter é uma mãe que, dentro de suas capacidades e estrutura, consegue proporcionar um ambiente saudável para o desenvolvimento de seus filhos (e por ambiente saudável leia se que seja pra ela também, que seja ela incluída na conta do bem estar).


Esse texto não é um passa pano pra ninguém, mas um olhar para o todo das situações, para a estrutura, isso importa, é essencial para as reais mudanças. Quando olhamos para o todo podemos analisar os problemas estruturais e vislumbrar as soluções. Isso não isenta as falhas, mas explica muitas delas.


Certamente queremos que as mães (assim como toda sociedade), sejam cada vez mais presentes, acolhedoras e respeitosas com as crianças, isso é essencial para a melhora do mundo, afinal, as crianças mal tratadas de hoje serão os lideres de amanhã e já sabemos na prática o que isso quer dizer não é mesmo?


O conteúdo da cartilha importa, e as mães também!


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